Para Guel Arraes, política de cotas pautou inclusão negra na TV e no cinema

Fonte: Folha de S. Paulo

Entrevistados no Roda Viva desta segunda-feira (20), pela TV Cultura, os diretores e roteiristas Guel Arraes e Jorge Furtado foram ao programa para falar sobre a nova criação da dupla, o livro “O Debate”, que simula um fictício embate entre Lula e Jair Bolsonaro em outubro de 2022, às vésperas de um hipotético 2º turno entre os dois.

A obra chegou recentemente às livrarias e a dupla, que já assinou obras como “O Auto da Compadecida”, “Cidade dos Homens” e “Mr. Brown”, disse não descartar que o novo texto ganhe uma adaptação para o teatro ou para o cinema.

Em meio a perguntas sobre política, TV e cinema, os dois falaram também do filme que começam a rodar dentro de um mês, baseado em “Grande Sertão: Veredas”, com a proposta de transpor o universo de Guimarães Rosa para uma guerra urbana de favela.

E responderam ainda a respeito da conscientização da indústria do audiovisual para a questão da representatividade negra nas telas, uma preocupação relativamente recente do setor.

Para Arraes, o propósito de abrir espaço a negros em cargos de criação, do texto à direção, além da representatividade na tela, existe há um bom tempo no seu set, mas a conscientização mais sistemática sobre o assunto veio a partir da política de cotas para negros nas universidades.

“Essa preocupação era uma coisa presente, mas a inclusão de profissionais negros, essa preocupação sistemática, começou, eu acho, com a discussão das cotas, porque ela se propagou por outras áreas, como televisão e cinema”, afirmou.

“O Brasil tem que ser representado nas suas telas com a sua maioria negra”, disse Furtado. “O Brasil é um país de maioria negra que não está nem de longe representado nas telas, nas câmaras federais, nas assembleias. Essa segunda abolição terá que vir um dia. O Brasil só vai ser um país civilizado de verdade quando enfrentar de cara, abertamente, o seu maior problema, que é o racismo”, concluiu o gaúcho.

Furtado citou que há peças e filmes em que o personagem pode ser negro, pode ser branco e “isso não faz muita diferença”. Já outras, que discutem racismo, como acontecia em “Mr. Brown”, uma comédia sobre o assunto, com Lázaro Ramos e Taís Araújo, é preciso que sejam negros.

Em uma montagem sua para “Rasga Coração”, de Oduvaldo Vianna Filho, escalou atores negros, e ouviu de alguns que Vianinha não escreveu que aqueles papéis eram de negros. “Ué, também não disse que eram brancos, posso fazer como eu quiser”, citou, assim como “O Homem que Copiava”, filme seu com Lázaro Ramos.

“No ‘Mr. Brown’, a equipe no primeiro ano não tinha roteiristas negros. Aí, quando a série seguiu para outras temporadas, nós dissemos: ‘precisamos de roteiristas negros’, porque eu posso sentar e inventar, mas tem coisas que eu não vou saber inventar ou imaginar na dramaturgia, como eu já fiz com ‘Ó Paí Ó’, ou ‘Cidade dos Homens'”, continuou Furtado.

“Eu lembro de uma menina negra que a mãe dela ensinou pra ela que ela não podia andar com as mãos nos bolsos no supermercado, então ela andava de braços abertos no supermercado. Um menino me contou que quando ele atravessava o trânsito no meio dos carros, ele podia ouvir o barulho das portas travando. Esse tipo de imagem eu não vou poder inventar.”

Guel Arraes falou sobre o papel tão mais relevante do audiovisual na inclusão. “Uma criança negra entrar no hospital e ver um médico negro é importantíssimo pra tudo: autoestima, confiança, motivação pra vida, tudo isso. Mas com o audiovisual, você pode fazer uma coisa muito mais forte. Um médico negro na ficção será visto por milhões de pessoas.”