Otaku e racismo: ‘Me mandaram voltar para a favela e aprender funk’

Fonte: UOL

Para chegar em sua quitinete, Ed desce escadas estreitas e vira esquinas das vielas do Morro do Fallet, em Santa Teresa, no Rio. O pequeno lar com um quarto e um banheiro se confunde com o ambiente de trabalho. Na cama, ele se entretém com mangás e animes. Na mesa, trabalha com produção de conteúdo.

Edson Cura, 25, é fotógrafo e criador do @animedicria, um perfil no Instagram que publica notícias e registros sobre o cotidiano de moradores do Rio. Em fotos de favelas cariocas, o autor mistura informação ao universo do mangá e do anime, cultura pop japonesa.

A iniciativa, que existe desde fevereiro, “surgiu com o intuito de esvaziar a minha mente na pandemia, porque não tive dinheiro para pagar a terapia”, diz ele. Atualmente, a página conta com mais de 15 mil seguidores e consome boa parte de sua semana.

Apaixonado por animes desde os 5 anos, quando começou a assisti-los em vez de brincar na rua, Edson descobriu o universo dos mangás com um garoto que conheceu, e com quem tem amizade até hoje, em uma de suas visitas ao pai, na zona norte carioca.

Bem-vindo ao universo otaku

A história de personagens como o “Naruto”, rejeitado pela sociedade, mas que supera as adversidades do preconceito e salva a vila onde mora, foi suficiente para Ed, ainda garoto quando o desenho ficou famoso no Brasil, se sentir representado.

“Ao sair da favela sinto olhares de rejeição como se o asfalto não fosse meu lugar, mas nem por isso vou deixar de seguir os meus sonhos e objetivos.”

O fotógrafo nunca se sentiu bem-vindo no universo otaku — termo usado para definir pessoas que se interessam pela cultura pop japonesa. Para ele, os otakus não estão muito abertos à diversidade. “Já me mandaram voltar para a favela e aprender funk“, relata.

Em uma de suas primeiras visitas a um shopping center, maravilhado com a quantidade de fitas de gameboy do Pokémon, Ed ficou parado na frente das prateleiras de uma loja. Ele lembra que o vendedor, aparentemente incomodado com o menino negro, o olhou com ares de reprovação e disse que ele “não podia estar ali”.

Para um jovem que cresceu entre a casa do pai, camelô, e a da mãe, cabeleireira e manicure, que tinham o suficiente apenas para oferecer o mínimo ao filho, eventos como Game XP, cujos ingressos custam não menos que R$ 250, nunca foram sua praia.

Politizado e crítico, Ed enfatiza que, assim como em outras produções do entretenimento, há pouca representatividade negra nos mangás — Brock, treinador do Ash em Pokémon é um deles. Mas isso não fez com que ele não se identificasse com os protagonistas que, nas suas palavras, “são tão fodidos quanto eu”.

Segundo ele, há teorias de que alguns personagens representem negros. Um deles é o Piccolo, explica Ed, um homem com a pele verde, careca, que tem nos ombros e cabeça tecidos brancos enrolados e se veste com um macacão. Vilão do anime Dragon Ball, tornou-se protagonista de Dragon Ball Z, GT e Super.

Com o passar do tempo, o então adolescente procurou outros espaços para interagir com esse universo. Além das visitas frequentes à casa do amigo de infância, ele descobriu o Festival PerifaCon e produtores de conteúdo como Andreza Delgado e Load Comic, que fazem reflexões similares às dele sobre as histórias.

Com a criação da página nas redes sociais, apesar do intuito singelo de apostar apenas em ocupar o tempo, Ed viu o @animedicria decolar rapidamente. Rappers como Baco Exu do Blues, BK’ e niLL, entusiastas de mangás, compartilharam suas postagens e o perfil viralizou.

No Rio, ele já é considerado precursor do formato. “Há pessoas que já estão produzindo inspirados no que faço”, conta. O jovem atribui o fato à carência de referências negras produzindo conteúdos como os dele e identificação com os temas abordados.

Território de ‘crias’

“Pivete” é como é chamado um menino das periferias de Fortaleza. “Piá”, nas vilas de Porto Alegre. No Rio, as crianças criadas em favelas são “crias”. Ed se inspirou nisso para nomear a iniciativa. “Escrito errado mesmo, ‘Dicria'”, para demarcar seu território e gerar identificação entre os jovens que ele quer atingir.

Autodidata, ele aprendeu a usar o Photoshop e a fotografar a partir de vídeos do YouTube. É o único por trás do projeto, além de parcerias pontuais. Produz, interage com os seguidores e, atualmente, cataloga livros doados para uma proposta de biblioteca comunitária exclusiva de mangás e HQs idealizada por ele.

Fora os momentos reservados para visitar a avó, sempre às segundas ou quintas-feiras, sua rotina é toda voltada ao @animedicria. Às terças, ele produz os conteúdos. Às quartas e sextas, faz publicações e cataloga os mangás doados. E, apesar da folga, às quintas, aproveita para interagir com os seguidores sedentos por um bom papo.

Aos domingos, desde julho, ele monta uma barraca na Feira da Glória, onde, além de vender camisetas para se sustentar, quer que seja um espaço de referência aos apaixonados por mangás e animes que, como ele, não se sentem acolhidos na comunidade otaku.

Mangá na geladeira

A casa de Ed transparece o quanto ele está engajado no projeto: na mesa do quarto, há uma pilha de livros esperando para ser catalogada; perto do banheiro um banquinho apoia um videogame e outra pilha de mangás; na laje, guarda mais mangás, em duas geladeiras – na visita de TAB, ele exibe, com orgulho, mais de 500 livros (doados e de sua coleção).

Já que as geladeiras estão ocupadas, os alimentos são armazenados em um frigobar e esquentados no micro-ondas. Em um vão na parede, suas roupas estão empilhadas.

Ed é um jovem esguio, inteligente e carismático. E crítico: um dos temas frequentemente abordados no seu perfil no Instagram são as operações policiais em horários escolares. Também já escreveu sobre o auxílio emergencial, enchentes e vacinas. Até amor já foi assunto.

“De plantão, mas pensando nela” é a legenda de um cenário manipulado onde o personagem Guts está sentado em um muro da Rocinha em uma noite de lua cheia.

Os personagens são tirados de frames de animes. No Photoshop, ele os recorta e faz colagens. Na postagem sobre as operações policiais, uma família é tirada de “Naruto”, com um plus: adicionou uma camiseta de uma escola municipal do Rio na imagem da criança.

Edson quer que a página se consolide como referência e que a biblioteca se torne um espaço para que a garotada, os “crias”, possam consumir mangás sem os olhares tortos de racismo que já enfrentou. “Se eu fosse um branco produzindo conteúdo sobre animes, a página já teria 100 mil seguidores”, diz.