O vereador Arnaldo Faria de Sá (Progressistas) durante evento da Câmara Municipal de São Paulo. — Foto: André Bueno/CMSP

‘Não vou tolerar atos de racismo’, diz presidente da Câmara de SP após vereador chamar Pitta de ‘negro de alma branca’

Fonte: Portal G1: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2021/07/13/nao-vou-tolerar-atos-de-racismo-diz-presidente-da-camara-de-sp-apos-vereador-chamar-pitta-de-negro-de-alma-branca.ghtml

Milton Leite afirmou que a frase de Arnaldo Faria de Sá (Progressistas) “machuca e é inadmissível”. PSOL pretende denunciar o vereador no Ministério Público e no Conselho de Ética, por quebra de decoro. Parlamentar se desculpou e disse que errou.

O presidente da Câmara Municipal de São Paulo, vereador Milton Leite (DEM), afirmou nesta terça-feira (12) que “não vai tolerar atos de racismo como o registrado na sessão desta segunda-feira (12) no plenário”, quando o vereador Arnaldo Faria de Sá (Progressistas) se referiu ao ex-prefeito Celso Pitta como “negro de alma branca”.

A expressão foi considerada racista e gerou indignação entre vários parlamentares da casa, que devem denunciar o parlamentar no Conselho de Ética e no Ministério Público de São Paulo por quebra de decoro parlamentar e racismo nesta terça (13), conforme o G1 publicou mais cedo.

Por meio de nota, Milton Leite disse que a frase de Faria de Sá “machuca, atinge nossa população e é inadmissível”.

“Como negro que sou, a fala racista do vereador Arnaldo Faria de Sá (PP) machuca, atinge nossa população e é inadmissível. Aos vereadores negros e vereadoras negras, solidariedade. Nesta luta contra o racismo estamos juntos, não há ideologia ou partido que nos separa”, afirmou a nota (veja íntegra abaixo).

“A Câmara representa toda a sociedade e é um ambiente livre de qualquer tipo de preconceito”, completou Leite.

Discurso na Câmara

Arnaldo Faria de Sá (Progressistas) usou a expressão “negro de alma branca” ao se referir ao ex-prefeito Celso Pitta durante um discurso na Câmara Municipal de São Paulo sobre o Projeto de Intervenção Urbana do Setor Central.

“Eu me preocupei com um negro, que era o Pitta, o prefeito da capital, que estava escorraçado, estava sendo atacado, vilipendiado. Derrotei o impeachment, ele levou seu mandato até o final. Eu tava preocupado com um negro de verdade, negro de alma branca como as pessoas costumam dizer, não podemos ter essa preocupação de não estar preocupado com todos”, afirmou o parlamentar (ouça gravação acima).

O uso do termo registrado apenas em áudio porque o parlamentar participava da sessão plenária remotamente, com a web câmera desligada.

Repercussão

O discurso gerou indignação entre diversos vereadores da capital, que acusam Faria de Sá de racismo.

“Mais uma vez quero pedir respeito aos vereadores, para que não utilizem falas racistas no plenário. Dizer que um negro para ser bom negro precisa ser um negro de alma branca é uma frase absolutamente racista e inaceitável neste plenário”, disse a vereadora Elaine do Quilombo Periférico (PSOL).

“Utilizar a expressão preto de alma branca para se referir a alguém como um negro de verdade é racista. Não vamos tolerar a utilização dessa expressão entre parlamentares, que deveriam representar o povo, povo majoritariamente negro. A bancada do PSOL vai representar o vereador na Comissão de Ética da Câmara”, afirmou a covereadora negra do mandato coletivo Bancada Feminista do PSOL, Paula Nunes.

A bancada do PSOL informou que vai entrar com uma denúncia na corregedoria da Câmara contra o vereador por quebra de decoro parlamentar e também fazer uma representação criminal no Grupo Especial de Combate aos Crimes Raciais e de Intolerância (GECRADI), do Ministério Público de São Paulo.

Pedido de desculpas

Depois da repercussão, Arnaldo Faria de Sá se desculpou publicamente sobre o episódio.

“Me desculpe, eu errei. Não quero discutir com ninguém. Eu quero só pedir desculpas humildemente”, afirmou o parlamentar, que fazia parte do governo Celso Pitta, entre os anos de 1997 e 2001.

Faria de Sá foi secretário de Governo do ex-prefeito, que morreu em 2009 em decorrência de um câncer, aos 63 anos. O vereador tem 75 anos e também já foi deputado federal por quase 30 anos, entre 1987 e 2015.

Íntegra da nota do Presidente da Câmara Municipal de SP

“A Presidência da Câmara Municipal de São Paulo esclarece que não vai tolerar atos de racismo como o registrado na sessão desta segunda-feira (12/7) no plenário, depois de duas votações importantes. Como negro que sou, a fala racista do vereador Arnaldo Faria de Sá (PP) machuca, atinge nossa população e é inadmissível.

Aos vereadores negros e vereadoras negras, solidariedade. Nesta luta contra o racismo estamos juntos, não há ideologia ou partido que nos separa. Reitero que a Câmara representa toda a sociedade e é um ambiente livre de qualquer tipo de preconceito”.