Autora de novela pede desculpas por cena de ‘racismo reverso’

Fonte: Folha de S. Paulo

Thereza Falcão, autora de “Nos Tempos do Imperador”, pediu desculpas pelo “erro grosseiro” em uma cena exibida no capítulo de sábado (21) da novela da Globo. Um diálogo entre os personagens Pilar (Gabriela Medvedovski) e Samuel (Michel Gomes) sugeriu que a mocinha da trama sofreu preconceito por ser branca.

Em seu perfil oficial no Instagram, o influenciador e ativista AD Junior afirmou que a cena foi um “deserviço”. “Aplicar o conceito de ‘racismo reverso’ numa fala é muito perigoso, e essa cena vai morar na cabeça de milhares de pessoas. Um deserviço total”, escreveu ele. Outras pessoas e ativistas também criticaram a novela.

Em comentário na publicação, a autora Thereza Falcão concordou que o diálogo “foi péssimo”. “Pedimos muitas desculpas. Eu mesmo quando vi a cena aqui em casa, falei: o que foi isso?”

Ela acrescentou que os capítulos iniciais da trama foram escritos em 2018 e gravados, em sua maioria, em 2019. “Na época não contávamos com uma assessoria especializada, o que só aconteceu no ano passado, com a entrada do [pesquisador de cultura afro-brasileira] Nei Lopes. Hoje assisto a muitas cenas com uma sensação muito longínqua.”

“Mais uma vez pedimos desculpas por cometer um erro grosseiro como esse”, completou ela, que é autora da novela ao lado de Alessandro Marson. Procurada, a Globo não se manifestou até a conclusão deste texto.

Na cena, Pilar conversa com o namorado sobre o fato de ter sido rejeitada na Pequena África, reduto de negros que buscam proteção. “Só porque você é branca não pode morar na Pequena África? Como queremos ter os mesmos direitos se fazemos com os brancos as mesmas coisas que eles fazem com a gente”, indagou Samuel.

“São cenas como essa que viram verdades para pessoas desinformadas sobre o período da escravidão”, escreveu AD Junior. Ele destacou que no período retratado em “Nos Tempos do Imperador” (a história começa em 1856) homens e mulheres negros não eram considerados seres humanos e vivam em regime de exceção. “Nem poderiam de fato segregar pessoas”.

“Um homem preto sentado num banco de uma praça com uma mulher branca seria um ET que está visitando a sua namorada em Marte. Primeiro, porque pessoas negras não podiam ‘vadiar’ ou seja, andar sem destino e sentar no banco da praça!”, completou AD Junior.

O ativista acrescentou que relações interraciais de forma explícita na época eram raras. “O conceito ou a ‘quase’ permissão para esse tipo de relação só vai acontecer na primeira metade do século 20.”

“A fala de um homem negro no período da escravidão dessa forma seria tão bizarra que chega a assustar quem assiste uma cena dessas”, criticou AD Junior.