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Simoninha fala sobre o racismo e a luta de seu pai no combate às desigualdades

Simoninha fala sobre o racismo e a luta de seu pai no combate às desigualdades

O hino do Movimento AR é a canção “Tributo a Martin Luther King”, de Wilson Simonal e Ronaldo Boscoli e, como não podia deixar de ser, um de nossos primeiros entrevistados do nosso site é  Wilson Simonal Pugliesi de Castro, ou simplesmente o Simoninha.

 

Nesse descontraído bate papo você vai poder conferir um pouco mais sobre a influência da luta e dos sonhos de Simonal na vida de seus filhos e como isso fez com que Simoninha também se tornasse um homem engajado às causas antirracismo.

1.         Como você se sentiu ao saber que a música do seu pai  “ Tributo a Martin Luther King” foi escolhida para simbolizar o Movimento AR?

Me senti muito honrado, feliz e emocionado. Essa é uma canção muito importante em minha vida e de muitas pessoas e, ser escolhida para ser o hino de um movimento nesse momento histórico pelo qual estamos vivendo me deixa muito orgulhoso.

 

 

2.         Além de ceder os direitos da música para o filme você também fez arranjos para deixar ainda mais forte o engajamento. Qual foi sua inspiração para fazer isso?

Com uma campanha como essa era um dever meu e do Bernardo Boscoli (música escrita por Simonal e Ronaldo Boscoli), nos sentimos horados de ceder os direitos de uma música feita pelos nossos pais para um movimento tão importante.

O arranjo foi um trabalho em equipe, nós conversamos muito, mas, no final do processo, o mérito  é do Diego Guimarães. Ele trabalha comigo e teve a grande sacada de usar os metais para fazer a analogia ao som do ar enquanto respiramos que fez toda diferença para o arranjo na música. 

 

3.         Sabemos que o Simonal sempre foi muito envolvido com as questões antirracistas. Ele chegou a participar da ONG Afrobras em seu início. Qual a influência dele em sua vida com relação à luta contra o racismo?

O Simonal, antes de ser famoso, viveu muito a questão do racismo e mesmo depois, durante a sua carreira, também enfrentou discriminação e nunca se abstraiu disso. Sempre colocou o racismo de uma forma importante e significativa em seu trabalho e em sua obra. Lutou a vida toda com amor, informação, educação e com a música, essas foram as ferramentas que usou para combater o racismo e o preconceito.

Não apenas a música Tributo a Martin Luther King deixa clara essa postura, como outras canções que compôs e outros artistas com quem se apresentou como James Brown e Steve Wonder, entre outros. Nos anos 60, nos quadros musicais que fazia  ele sempre trouxe uma reflexão sobre o negro e sua postura de nunca abaixar a cabeça e de se sentir realmente igual.

Muitos dos problemas que Simonal enfrentou ao longo de sua carreira foram em função dessa sua atitude e do racismo estruturado que “ajudaram a prejudicar” sua vida e pagou um preço muito alto por isso.

 

 

4.         Como é para você a questão da luta pela igualdade? Mesmo sendo um consagrado artista e filho de um dos mais memoráveis cantores do Brasil é afetado pelo racismo?

Para mim a questão da luta é fundamental.  Meu pai tinha um sonho, que compartilhava com o revendo Martin Luther King, de que a luta estava no fim. 

Claro que já andamos para frente, só o fato de podermos estar aqui falando abertamente sobre o tema confirma isso. Mas, passados 50 anos, constatamos que a Luta Continua.

Hoje é muito nítido, principalmente nas camadas menos favorecidas da sociedade, que sofre com o confronto com a polícia, a falta de oportunidades, a desconfiança quando se vai ao banco, ao supermercado, ao shopping somente por causa da cor da sua pele. 

A luta continua e temos a consciência de que não podemos parar enquanto existir essa doença dentro da nossa sociedade

 

 

5.         Qual foi o seu sentimento ao se deparar com acontecimentos como  a morte de George Floyd, crianças mortas no Brasil, agressão a comerciante em SP com ações de enforcamento , entre tantas outras que não chegam ao nosso conhecimento mas sabemos que existe?

Os sentimentos se misturam entre dor, revolta e indignação. É uma tristeza que você não sabe explicar!

Cada um se manifesta de um jeito, eu me manifesto artisticamente cantando e escrevendo com a canção “Quem Sou” que fala desse mundo estúpido em que agente vive.

 

Por isso não podemos nos calar. Precisamos estar sempre falando e repetindo que isso tem que acabar. As pessoas não podem ser diferenciadas pela cor da sua pele, pelo seu cabelo. Isso é de uma ignorância e tristeza muito grande.

Quando a violência é tão evidenciada, fica claro que se perdeu totalmente a razão e infelizmente esses incidentes acontecem e vem à tona para reforçar o quanto é importante essa luta seguir em frente. 

 

6.         Estamos num momento único no Mundo, onde a empatia parece ter reinado em pequenas e grandes ações das pessoas em prol da solidariedade. Você acredita que esta é uma transformação e todos sairemos melhores desse período de Pandemia ou não?

Espero que seja um momento de reflexão e que as pessoas realmente aprendam.

Faço uma analogia a esse momento como quando perdemos uma pessoa querida e estamos num velório refletindo o que realmente vale a pena na vida e, quando saímos de lá a vida volta  para o modo automático.

Desejo que esses meses que estamos vivendo seja um tempo para refletirmos e mudarmos os valores para buscarmos uma vida com maior qualidade em todos os sentidos e o olhar ao outro de uma forma menos preconceituosa. Isso é o que almejo e que espero que a sociedade consiga dar esse passo tão importante para sua evolução.

 

 

7.         Qual o mundo que deseja para seus filhos e netos?

Espero um mundo mais igualitário, mais colorido e que valores universais possam estar presentes nos quatros cantos. Desejo um mundo mais justo para os meus filhos e netos sem qualquer forma de preconceitos.  Se aproveitarmos esse momento único para evoluirmos nesse sentido será um passo muito importante para humanidade

 

8. Acrescente algo que queira falar sobre essa luta e o Movimento AR.

 

Desejo que o Movimento AR possa ser um ponto de partida para reflexão e conquistas, para educação e  que contribua com a nossa sociedade. Que as pessoas encarem e abracem o Movimento como uma oportunidade que veio para agregar,  para nos unirmos, para sermos mais fortes lutando a favor da educação e a favor dos nossos direitos.