Racismo na infância: debate ganha fôlego após caso relatado no BBB

Fonte: Jornal Correio *: https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/racismo-na-infancia-debate-ganha-folego-apos-caso-relatado-no-bbb/

Especialistas indicam como lidar com o preconceito entre crianças 

“Meu cabelo é feio”. Foi com apenas 3 anos de idade que a filha da cantora e BBB Pocah se queixou do cabelo crespo. A funkeira narrou o episódio em rede nacional depois do preconceito vivido pelo colega de Big Brother Brasil, João Luiz, que teve seu cabelo black power comparado à peruca de um homem das cavernas. Assim como a pequena Vitória, hoje com 5 anos, são muitos os que sofrem com o racismo na infância. 
 
Mas ao contrário do universo adulto, muitas vezes os episódios são silenciados porque acontecem no ambiente escolar, onde são confundidos com bullying. “Você não pode ser princesa porque você não tem cabelo liso”, ou “só brinco com você se for a empregada” são duas das frases relatadas à defensora pública estadual Gisele Aguiar, em seu trabalho. 
 
Coordenadora da Especializada de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente da Defensoria da Bahia, Gisele explica que boa parte das situações de racismo vivenciadas pelas crianças acontecem “naquela coisa da ‘brincadeira’”. Daí vem a dificuldade de reunir dados que consigam mensurar a realidade, já que as denúncias não são feitas. Mas não por falta de casos. 
 
“Muitas vezes há uma confusão entre bullying e racismo e as crianças não conseguem ter a percepção de que estão sendo vítimas de práticas racistas. Além disso, em muitos casos os pais não têm coragem de denunciar”, acrescenta a também defensora pública estadual Laissa Rocha, que atua junto com Gisele na Especializada de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente. 

Pensando em ampliar o debate, já que “o problema não está nas crianças, mas nos pais, porque elas reproduzem o que veem em casa”, como pontua Gisele, foi criada a campanha Ação Cidadã. Além do selo Escola Antirracista, que está sendo criado junto à prefeitura de Salvador, uma série de atividades marcam o projeto lançado em março que seguirá de forma perene a partir dos próximos meses.

Debate de todos 
Debates com as escolas estaduais, municipais e particulares, e o segundo volume do livro de minicontos ‘Nossa Querida Bia: enfrentamento ao racismo desde a infância’ estão entre as próximas atividades da Ação Cidadã criada por Laissa, Gisele e Eva Rodrigues. A ampliação do canal com os pais e responsáveis com um e-mail para denúncias (infanciasemracismo@defensoria.ba.gov.br) também faz parte do projeto. 
 
“A discussão do racismo deve ser de todos”, defende Laissa, mãe de Ana Beatriz, 6, que inspirou o livro Nossa Querida Bia. “É preciso que todos se envolvam e quando nos referimos à importância de trabalhar as crianças não-negras é nesse intuito. A gente trabalha na reparação, quando a prática do racismo já aconteceu, mas a ideia é chegar antes, educar para que não aconteça”, explica. 
 
O livro mostra que cada tipo de cabelo é importante, aborda o tema do racismo religioso e fala sobre respeito. Tudo isso usando o lúdico, enaltecendo a capacidade de sonhar e valorizando a ancestralidade negra, com reis e rainhas das civilizações africanas. “Representatividade para que as crianças tenham exemplos positivos. Essa é a história de uma menina negra consciente de seu pertencimento racial”, comenta Laissa. 

Diretor artístico com forte atuação no teatro nacional, o baiano Fred Soares, 42, diz que a pedagogia afrocentrada da Escolinha Maria Felipa, onde sua filha Lis Bella, 4, estuda foi fundamental para o fortalecimento da autoestima da pequena. “Ela não sofre com isso, adora o cabelo dela. Todo dia no banho é uma preocupação: ‘Meus cachinhos! Quero cachinhos! (risos). É muito bem resolvida”, conta, orgulhoso.