Quando o DNA diz de onde vim

Fonte: UOL/Tilt: https://www.uol.com.br/tilt/reportagens-especiais/raizes-cravadas-no-dna/index.htm

Tilt enviou testes genéticos a 20 personalidades negras, e elas contam o que descobriram sobre suas raízes

A primeira vez que minha avó falou sobre o pai dela também foi a última. Dono de alambique, um dia bebeu muito e, com o cair da noite, deitou-se na beira de um riacho para nunca mais levantar. Sem dizer quantos anos ele tinha, se tinha morrido faz tempo ou onde tudo aconteceu, dona Luzia dos Anjos Freitas, 94 anos, encerrou assim a história do antepassado mais longínquo de que tenho notícia.

Casos como o meu são uma maldição a que está fadada boa parte dos afrodescendentes do país. Bisnetos e tataranetos dos africanos sequestrados de suas terras na maior migração já vista na história da humanidade, eu e 56% do país, ou seja, aqueles que se autodeclaram negros, compartilhamos de um passado inexplorado — afinal, o Estado brasileiro despiu essas pessoas de sua história, cultura e etnia e se dedica com afinco ao esquecimento de suas memórias.

Há, porém, uma lembrança difícil de apagar: aquela transmitida de geração em geração no genoma de cada ser humano. Aproveitando que nunca foi tão barato e fácil obter uma análise do próprio DNA no Brasil, Tilt distribuiu testes genéticos para 20 personalidades descobrirem as regiões do mundo de onde saíram suas cargas genéticas.

Do vereador paulistano Fernando Holiday à ex-ginasta olímpica Daiane dos Santos, e do sambista Péricles às jornalistas Maju Coutinho e Aline Midlej e às escritoras Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz, todos disseram que conhecer origens há tanto esquecidas transmite uma sensação incomparável de pertencimento.

Eu estou sofrendo isso tudo aqui, mas tem uma multidão comigo, não estou sozinha. Sentimento de solidão é algo que a gente conhece muito. ‘Solidão’ é uma palavra que a gente conhece mais profundamente do que a palavra ‘amor’. A gente só ama aquilo que a gente conhece

Eliana Alves Cruz, Escritora, jornalista e autora de ‘Água de Barrela’

A história escrita no ser humano

Faz vinte anos que os primeiros rascunhos do sequenciamento do genoma humano foram divulgados. O esforço, que durou mais de 25 anos e custou US$ 3 bilhões, fez o ser humano desvendar pela primeira vez o código que dita nossas características mais marcantes.

A partir daquele momento, soubemos que 99,99% do DNA é idêntico para quaisquer populações e tem aquele 0,01% que nos torna únicos. É nessas poucas bases nitrogenadas que estão os indicativos de predisposição para certas condições de saúde ou os traços da nossa ancestralidade.

Em 2008, quando houve um novo sequenciamento, o valor já era US$ 300 mil. Cinco anos depois, quando a atriz Angelina Jolie chocou o mundo ao optar pela mastectomia dupla (retirada das duas mamas) e retirada dos ovários após um teste de DNA detectar uma alteração no gene BRCA1 (que indica risco para câncer nesses órgãos), o exame menos sofisticado para mapeamento completo custava US$ 4.000.

Chegamos a um ponto em que os avanços científicos e tecnológicos tornaram as análises genéticas realmente acessíveis. Os laboratórios acostumados a análises clínicas passaram a oferecer testes rápidos, disponíveis a qualquer um, sem necessidade de pedido médico. Percebeu-se que não era mais necessário ler o código inteiro para achar variações. E logo a demanda cresceu tanto, que o preço caiu. Nos EUA, um kit do tipo virou um dos produtos mais vendidos pela Amazon na Black Friday de 2018.

Ofertas parecidas chegaram ao Brasil no ano seguinte e deslancharam em 2020. Hoje, é possível comprá-las por preços que variam de R$ 200 a R$ 500.

Cicatrizes abertas pelo meu DNA

Para algumas pessoas, o teste de DNA comprovou aquelas certezas sem provas que há tempos circulavam na família. Daiane dos Santos sempre ouviu da avó que os ancestrais vieram de Angola. Justificativa zero. Anos atrás, ela se emocionou com uma carta de crianças angolanas contando que gostavam de vê-la na TV. Ao encontrar a equipe do país africano em competições, sentia-se tão à vontade que pedia para tirar foto. Quando saiu, o resultado indicando que 51% de seu material genético vem de Angola só confirmou o que o coração dela já sabia.

Para o vereador paulistano Fernando Holiday, descobrir que 67,9% de sua herança é africana forçou uma revisão de conceitos. Para Maju, a busca virou uma saga familiar —pai, mãe, irmão e marido fizeram o teste também. Saber tudo isso, porém, não deveria ser algo tão desafiador. “É um presente para nós resgatar, mesmo que em parte, algo que era direito nosso e que nos foi tirado”, diz ela.

Se a jornalista caiu de cabeça em leituras de pensadores como Grada Kilomba e Césare Aimé para compreender suas origens, a economista Nina Silva tem outros planos. Ela quer cidadania de Benin, Nigéria e Angola, países responsáveis por seus 92% de sua ancestralidade genética africana.

Depois de o teste indicar o Oeste da África como lar de seus ancestrais, o comediante Yuri Marçal cavou aqui e ali. Descobriu que um de seus antepassados lutou para libertar familiares da escravidão e outro era um escravizado reprodutor. O exame não só ajudou a remover o pó de algumas histórias. Também reabriu feridas que nunca cicatrizaram.

A escritora, atriz e roteirista Kenia Maria só teve olhos para os 30% de herança genética portuguesa —não era o maior percentual, mas incomodou. “Em um momento eu desconfiei [por conta do sobrenome Xavier da Gama]. Depois, veio a constatação. Eu tinha muito medo de ter esses opressores tão perto. Agora, vejo que estão próximos, estão no meu sangue. Eu não sei se é bom ou ruim isso, de verdade. Como eu sou sensível, no mesmo dia eu fui para a terapia.”

Para você ver a sofisticação do racismo brasileiro: faz com que eu tenha um sobrenome, e me orgulho de ser ‘da Gama’. Mas Gama era provavelmente o cara que estuprou e laçou minha avó. Esse Gama que eu vou trocar, com certeza, me faz muito mal

Kenia Maria, escritora, atriz e roteirista

Como lembrar desimportâncias?

Durante as duas dezenas de entrevistas que eu e o repórter Guilherme Tagiaroli conduzimos, ficou claro que as memórias sobre as origens de parte da população não se esfacelaram do dia para a noite, mas foram sendo moídas pouco a pouco, lenta e sistematicamente. Até chegarmos ao ponto de que já não há o que lembrar.

“Temos tanta certeza de que não vamos achar nada da gente, de que esse passado está apagado, que nem perguntamos se foi isso que aconteceu”, diz Eliana Alves Cruz. Ela questionou e conseguiu remontar a história da família, que ganhou vida no livro “Água de Barrela” — já no título, que remete à água jogada fora após a roupa ser lavada, ela dá o tom da desimportância com que fomos ensinados a encarar nossa própria história.

Eliana, porém, é exceção. A maioria de nós não conhece para além dos avôs e trisavôs. Saber de onde vieram, então, é algo que ora não desperta interesse ora alimenta histórias que ganham ar de lenda dentro de casa. Os sabores e temperos africanos estão na cozinha da família da economista Nina Silva. Os cantos do candomblé ainda são entoados no terreiro a que o comediante Yuri Marçal vai. As saias largas e a habilidade da avó para tecer fibra de plantas ainda habitam a lembrança de Conceição Evaristo. Como estes hábitos foram parar no seio familiar, no entanto, é uma incógnita.

Rica história do esquecimento

O sociólogo Matheus Gato, professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), explica que isso é ensinado. “Você aprende socialmente que não tem valor. E, se o seu corpo não tem valor, a sua história vale menos ainda. De que valem os documentos da sua vó? De nada. Em uma sociedade marcada pelo racismo, não valem mesmo.” Ele ainda completou com uma observação que poderia resumir parte das conversas que eu e Guilherme tivemos: “O que essas pessoas narram é a perda de um documento, é o não fazer uma pergunta. É como se muito do que tivessem para contar fosse uma rica história do esquecimento”.

Cheguei a ver a foto da tataravó de Maju. A dona Samucuta se chamava Maria Julia, e foi em homenagem a ela que a jornalista foi batizada. Mas o ator Babu Santana me contou que chegou a topar na adolescência com um documento feito por uma bisavó em nome da filha para assegurar que a menina era uma negra liberta pela Lei do Ventre Livre. Detalhe: a avó de Babu nasceu na década de 1910, mais de 20 anos após a abolição, mas, explica ele, essa ideia demorou a chegar ao interior do Brasil. Com o tempo, o papel se perdeu.

Por outro lado, saber de onde veio não é problema para parcela da população. A geneticista Tábita Hünemeier, um dos expoentes em pesquisa de ancestralidade genética no Brasil, diz, com ares de brincadeira, conhecer o que o tataravô fazia na Alemanha no século 16. Mas é sério: ela também sabe o que ele comia, que tipo de alemão falava, qual era sua ocupação e até a rua onde morava.

Eu não tenho contato com os meus antepassados não é porque eles quiseram. É por causa de um regime que foi totalmente desumano. Eu acho que todo mundo tem o direito de saber da sua história

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Babu Santana, ator

Apagamento como política de Estado

Sozinha, a escravidão não explica como a memória afetiva de mais da metade da população foi apagada. Ainda assim, ela foi bastante competente no emprego de mecanismos que transformaram os 4,5 milhões de africanos trazidos para cá na condição de escravizados e pertenciam a diversas etnias apenas em “pretos” (veja quadro abaixo). “A travessia impôs outro nome, outra religião, outra língua. Isso é uma morte simbólica muito forte”, explica o sociólogo Mário Medeiros. Também deixou um legado que deu conta de perpetuar o esquecimento após a abolição.

“A invisibilidade também é uma construção social”, diz o historiador Flávio Gomes. E essa carpintaria já aparecia no pensamento social brasileiro dos anos 1920, quando a escravidão era tratada como algo longínquo e já superado pela sociedade. “Houve um apagamento nos livros escolares, nos currículos escolares das primeiras universidades brasileiras. Os professores em São Paulo tinham aula em francês e alemão sobre como aquilo era um passado obsoleto. A escravidão era quase um disquete, uma máquina de escrever, algo plenamente superado.”

As pesquisas da época, explica Gomes, eram conduzidas sem considerar que havia na sociedade ex-escravos (os mais novos com cerca de 30 anos) e até africanos sequestrados (na casa dos 80 anos, já que a média de idade dos que eram trazidos era de 14 anos e, apesar de o tráfico ter sido abolido em 1851, há registros de entrada até 1856).

A juventude não pode perder essa perspectiva. Assim como as histórias dos mais velhos me alimentaram, essas pesquisas podem recolocar a juventude em outro lugar. Não viemos do nada, temos um passado, sim, só que esse passado foi violentado. E a culpa não é nossa. A história como ciência é um elo muito difícil de comprovar. Mas há um trabalho ficcional que pode te alimentar, tanto quanto uma comprovação histórica

Conceição Evaristo, escritora, autora de “Olhos D’água”

Gargalos da análise genética

Apesar de ajudar a desvendar o passado, os testes de DNA não são uma resposta definitiva. Africanos e latino-americanos têm presença baixíssima em bancos genéticos, na maioria de países desenvolvidos: 2% e 1,13%, respectivamente, enquanto europeus são 78,3%.

Isso pode interferir no resultado de exames. Segundo Iuri Mateuzzo Ventura, do laboratório genético Mendelics, é o que pode ter acontecido com Daiane. No passado, ela fez um exame que apontou 44% de ancestralidade negra. Agora, a taxa subiu para 66% —provavelmente porque os bancos foram atualizados.

“Se tu perguntar qual a frequência de câncer de mama em população indígena ou quais genes estão relacionados, eu, que trabalho com eles, não vou te dizer. Há poucos estudos sobre isso e não temos uma resposta específica, porque o protocolo é feito para europeus e descendentes de europeus”, dispara Tábita.

Ignorar a variabilidade de outras regiões impede cientistas de conhecerem toda diversidade genômica do ser humano, ainda mais porque a população africana é a mais diversa do mundo. Ano passado, um sequenciamento dos genomas de apenas 426 pessoas revelou mais de 3 milhões de variações novas.

“Diversidade é algo que tem de ser estudado. Pensa bem: [banco genético de] 500 mil ingleses não serve para nada. Só para estudar doença de europeu”, provoca a geneticista.

Há esperança, porém. Um ambicioso projeto está para criar, dentro de uma década, um banco de 3 milhões de genomas africanos a um custo de US$ 180 milhões. Com muito mais dados à disposição, muito em breve, as descobertas feitas agora ao longo do projeto de Tilt podem representar apenas uma gota no oceano de informação que se abrirá no futuro.