Professora denuncia racismo em supermercado de SP; segurança a acusou de roubar bandeja de carne

Fonte: G1

A Polícia Civil de São Paulo investiga se houve racismo na abordagem de um segurança do supermercado Hortimais, na Zona Sul de São Paulo, no último dia 7 de agosto. Segundo a vítima, a professora Francisca Silvana da Silva, uma mulher negra, o segurança da loja a abordou e insinuou que ela estaria roubando uma bandeja de carne. Imagens do circuito interno de segurança mostram que Francisca não colocou nenhum item na bolsa.

Em nota, o advogado que representa o mercado disse que o serviço de fiscal de loja é terceirizado e que vai aguardar a apuração das autoridades. A empresa disse ainda que não compactua com qualquer forma de discriminação racial e que vai reforçar esse compromisso com todos os funcionários.

Imagens do circuito interno da loja, obtidas judicialmente e fornecidas pelos advogados da vítima, mostram Francisca Silvana da Silva entrando no supermercado e olhando produtos no setor de carnes.

Ela pega algumas bandejas do produto pra olhar melhor. As imagens mostram que ela não coloca nenhum produto na bolsa. Francisca, então, desiste da compra e caminha para a saída. Neste momento ela passa a ser acompanhada de perto por um segurança. Antes de sair, ela diz que o segurança a acusou de estar furtando uma bandeja de carne.

“De maneira muito impositiva, ele se direciona na minha frente e me pergunta se eu não ia passar no caixa. E aí eu disse não eu não vou passar no caixa porque eu não estou levando nada do seu estabelecimento, não satisfeito ele disse pra mim: você tem certeza? E eu falei eu tenho certeza”, conta Francisca.

As imagens, que foram levadas nesta quinta-feira (19) à delegacia que apura o caso, mostram ainda a discussão de Francisca com o segurança. É possível observar funcionários e outros clientes acompanhando tudo o que estava acontecendo, mas ninguém faz nada.

Segundo Francisca, o segurança queria levá-la para outro lugar para revistar sua bolsa. Ela disse que ficou com medo e que, por conta disso, tentou gravar com o próprio celular a abordagem.

“Nós estávamos num corredor que acessava o banheiro, esse foi meu maior medo no momento. Foi uma sensação de muito medo, porque você retoma tudo o que você vê que acontece em situações dessas com homem, imagina com uma mulher”, conta Francisca.

“Ao mesmo tempo que eu tive muito medo, conduzida por uma tristeza, uma revolta, por aquela exposição, eu disse ‘eu não vou ali com você, se você quiser verificar as minhas coisas, você vai verificar aqui. Só que pra você verificar as minhas coisas aqui, eu vou filmar, porque você não vai encontrar nada e eu preciso de respaldo pra eu recorrer sobre o constrangimento que você esta me fazendo passar'”, lembra.

O vídeo das câmeras de segurança do mercado mostram que a professora pega o celular pra gravar as atitudes do segurança, que tenta tomar o aparelho da mão dela. Ela resiste e liga para uma advogada.

Na sequência, o segurança vai até o estacionamento e chama a polícia. Câmeras externas mostram o momento em que a viatura chega.

Francisca diz que pediu para a Polícia Militar relatar no boletim de ocorrência o que tinha acontecido. Ela abre a bolsa para os policiais, que verificaram que ela não guardava nenhum produto do mercado de onde tinha acabado de sair.

Segurança continua trabalhando

A reportagem da TV Globo esteve no supermercado nesta quinta (19) e conversou com um funcionário que se identificou como gerente.

Ele informou que o segurança continua trabalhando no estabelecimento e que o mercado tem um espaço reservado para fazer revista, mas que o local nunca foi usado.

Segundo Dimitri Sales, presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos (Condepe), o supermercado deve responder pelas atitudes de funcionários terceirizados em relação aos clientes.

“O supermercado responde pelos funcionários ainda que seja por empresa terceirizada. O mercado não transfere a responsabilidade da prestação correta dos serviços aos seus consumidores, aos seus clientes”, explica Sales.

A advogada da professora que denunciou o supermercado, Renata Melocchi Alves, disse que deve entrar com ação por danos morais para que o estabelecimento repense o treinamento de seus funcionários.

“O próximo passo agora é ajuizar uma ação de reparação civil, que é a ação de indenização pelos danos morais, pra que ela tenha reparado minimamente todo o transtorno, humilhação e abuso que ela sofreu, e também como forma punitiva e educativa pro estabelecimento comercial, que certamente vai repensar sua segurança e treinamento dos funcionários”, afirma Alves.

Casos de racismo

O número de denúncias por discriminação racial recebidas pela ouvidoria da Secretaria Estadual da Justiça e Cidadania de São Paulo saltou de 21 para 39 de janeiro a julho deste ano, na comparação com o mesmo período do ano passado, um aumento de 85,71%.

O serviço SOS Racismo, da Assembleia Legislativa do Estado de SP, recebeu 718 denúncias, nesse ano, feitas por pessoas que sofreram algum tipo de preconceito racial no estado.

De acordo com dados obtidos pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, houve uma diminuição de registros de injúria racial no estado de SP entre 2019 e 2020. De 2 mil 206 casos, o número caiu para mil 722: uma queda de 21,94%.

Se alguém sofrer ou presenciar esse tipo de situação, as denúncias podem ser feitas pelo Disque 100, que é o departamento de ouvidoria nacional dos direitos humanos, ou pelo número da polícia, 190.