Pluralidade qualifica o jornalismo e permite contemplar diferentes perspectivas de sociedade

Fonte: jornal Folha de S.Paulo: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/cida-bento/2021/02/pluralidade-qualifica-o-jornalismo-e-permite-contemplar-diferentes-perspectivas-de-sociedade.shtml

É preciso assegurar diversidade para que não seja sufocada a democracia em nome da liberdade econômica

Recentemente, num canal da TV aberta, provavelmente aquele mais assistido pela população brasileira, o âncora do jornal comentou: “É fundamental a privatização da Eletrobras, para que tenhamos recursos para o auxílio emergencial e para a compra da vacina!”.

Ao que a “nossa comentarista”, uma jornalista do campo da economia, arrematou: “Precisamos avançar na agenda de reformas, não só na questão das privatizações mas também na reforma administrativa, que
continua parada porque é impopular, mas que precisa ser feita para que o país tenha recursos para aqueles que estão passando por dificuldades e necessitam de apoio do governo!”.

Nada mais significativo de como uma parcela grande e expressiva da mídia brasileira atua em conjunto com o “mercado” para convencer o povo de que o país irá à falência se não forem retirados direitos garantidos em lei e destruídas instituições de proteção social, como a Previdência, o SUS e outros serviços públicos, além dos sindicatos e as empresas estatais.

Como lembrou o jornalista Laurindo (Lalo) Leal Filho em artigo na Rede Brasil Atual, o Brasil tem um elevado grau de concentração da propriedade dos meios de comunicação, e esse é um dos fatores que permitem essa adoção de um pensamento único por parte dos veículos de maior expressão, contradizendo a Declaração de Princípios sobre a Liberdade de Expressão, que preconiza que a formação de monopólios ou oligopólios de comunicação atenta contra a democracia.

É preciso assegurar diversidade nos posicionamentos políticos, econômicos e sociais para que não seja sufocada a democracia em nome da liberdade econômica.

Na semana em que esta Folha completa 100 anos, que ela possa continuar a sua própria mudança em questões centrais como a abordagem às ações afirmativas. Anteriormente, seu posicionamento era contrário, porém na atualidade ela própria vem desenvolvendo ações no sentido de ampliar a multiplicidade de vozes dentre seus articulistas, bem como de pautas e conteúdos, que trazem diferentes perspectivas para os desafios enfrentados pelo país.

Esse redirecionamento fortalece a democracia e pode ser pedagógico para outros veículos de comunicação fundamentais em nosso país, que poderiam também quebrar o pensamento único, principalmente quando ele busca atender apenas ao interesse de determinados segmentos da sociedade.

Muitos esforços vêm sendo feito para mudar essa realidade: a Associação Brasileira dos Economistas pela Democracia (Abed) reuniu em 2019, em Brasília, um grande número de profissionais com objetivo de quebrar o monopólio das fontes ligadas ao pensamento único. Ou, ainda, podemos constatar a expansão de uma mídia independente presente nas periferias das grandes cidades do país.

Como escreveu em um artigo da Associação Brasileira de Pesquisadores(as) Negros(as), a ABPN, em 2012, o diretor do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e coordenador da Comissão de Jornalistas pela
Igualdade Racial (Cojira SP), Flavio Carrança: “Inicialmente restrita ao âmbito acadêmico, a reflexão sobre o papel da imprensa e dos meios de comunicação com relação ao racismo ganhou, nos últimos anos, um espaço maior na agenda do movimento negro, a partir do momento em que percebeu que o jornalismo pode ser um instrumento poderoso, tanto para o reforço ou para a produção do preconceito quanto para a promoção da igualdade”.

A pluralidade de vozes qualifica o jornalismo, ao considerar aspectos como classe, raça, gênero, territorialidade, identidade de gênero e geração. Essa pluralidade possibilita ainda que sejam contempladas diferentes perspectivas de sociedade, de desenvolvimento, de futuro para o país.

Os acontecimentos se constituem a partir dos lugares sociais concretos das pessoas neles envolvidas e podem não só revelar uma diversidade de olhares para os problemas mas também uma gama de soluções inovadoras e diferentes para estes mesmos problemas.

Cida Bento

Diretora-executiva do CEERT (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades), é doutora em psicologia pela USP