Os livros despertaram em mim a necessidade de mais diálogos com outras vidas

Fonte: Jornal Folha de S.Paulo: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/veny-santos/2021/04/os-livros-despertaram-em-mim-a-necessidade-de-mais-dialogos-com-outras-vidas.shtml

A curiosidade sobre o que esconde cada obra tem a capacidade de transformar o indivíduo

Abril é um mês que dedica algumas de suas datas à escrita, a quem a faz e a quem a conserva. Dia do Jornalista, do Braile, da Biblioteca, e do Livro recordam a importância das palavras não ditas.

Não é novidade, infelizmente, que a média nacional de leitura não chega a três obras lidas por completo no ano. Ainda assim, há quem se mantenha em constante redação sobre tudo o que lhe ocupa a mente, mas não sai pela boca —e sim pelas pontas dos dedos.

O quanto a pessoa se modifica após terminar a leitura de um livro? E o quanto dela modifica os demais ao entregar algum canto de si mesma nas entrelinhas de seu senso de mundo? Muito.

“A Cor Púrpura” foi a primeira obra com a qual tive contato e me impactou. As leituras anteriores eram poucas, forçadas pelo ensino autoritário e nada convidativo.

A obra de Alice Walker chegou até mim como presente de mãe. Não cresci em meio aos livros. As páginas que lia eram as da rua, com suas tantas histórias e causos.

O capítulo que primeiro decorei foi o do “Diário de um Detento”, dos Racionais MC’s, que sempre tocava em alguma casa, em algum domingo dos anos 1990. Nada disso se resumia ao crime. Ia além. Remetia às narrativas que versavam sobre a existência onde eu, minha família, amigos e conhecidos, existíamos. A realidade contada para quem a entendia, de fato.

Já Celie chegou tímida e silenciosa. Nas primeiras páginas, uma surpresa: a gramática fora da norma.

“Pode escrever assim?”, perguntei-me ao ler cada termo na sua essência —ou seja, na fala dela, a personagem. O que poderia ser algo a dificultar meu entendimento teve efeito contrário.

Eu não lia Celie. Conversava com ela. A comunicação era mais do que meio para nós, era o caminho. Pude acompanhá-la, desde o sofrimento quanto aos filhos, até a violência do Sinhô e o amor de Doci Avery.

Ao longo dos anos, conheci outros personagens, tão reais em meu dia a dia quanto os autores e autoras que os narraram. Cito também David, criado por James Baldwin, em “O Quarto de Giovanni”.

Neste caso, minha pergunta ao lê-lo foi diferente: “Posso sentir assim?”.

Estas e outras obras mantiveram em mim a necessidade de mais diálogos com vidas que não a minha —e a curiosidade sobre o que escondia cada livro.

Não havia biblioteca no meu bairro. A da escola era bem escassa e se resumia a livros didáticos. Poucas obras eram dedicadas à literatura.

Penso que, hoje, se ainda fosse pivete, mergulharia ainda mais no universo literário com a possibilidade de acessar obras por iniciativas extremamente importantes como a Biblioteca Assata Shakur.

Localizada na rua Chaberá, 190, bairro da Vila Formosa, lado leste da cidade, o projeto comunitário oferece livros de autoras e autores negras e negros, respectivamente, já conta com mais de 500 exemplares.

Muitos são fruto de doações, e a comunidade local —especialmente a parcela preta— podia, antes da pandemia, conhecer as muitas mentes geniais de sua própria raça.

Devido ao momento crítico, a biblioteca, criada pela organização Ujima Povo Preto, segue fechada, mas com os livros devidamente guardados e na espera do momento certo para darem a palavra.

O nome que leva a biblioteca também tem suma importância nas letras.

Assata Olugbala Shakur é escritora revolucionária e ativista que integrou o partido dos Panteras Negras e o Exército Negro de Libertação nos Estados Unidos dos anos 1970, e foi acusada de assassinato pela polícia e tratada como terrorista pelo país norte-americano.

Exilada em Cuba até os dias atuais, sua escrita segue como meio de resistência e lembrança da perseguição sofrida por parte de ativistas negros e negras ontem, hoje e, com certeza, amanhã.

Em sua autobiografia está registrada a vida de quem se dedicou à liberdade de seu povo, a combater o racismo, e denunciar a violência policial. A obra retrata a importância do pensamento revolucionário negro assim com as muitas denúncias contra a supremacia branca.

Ao lado de Assata, nomes como Mumia Abu-Jamal e Dhoruba bin Wahad, também são exemplos de escritores cujas literaturas precisam ser lidas.

Reside nelas a garantia de que injustiças não serão esquecidas pelas próximas gerações. Poderia listar muitos nomes mais, porém deixo isso para meus próximos escritos neste espaço.

A Biblioteca Assata Shakur registrou, em seus meses de atividade, uma alta procura por livros sobre Malcolm X e Abdias Nascimento.

Um sinal importante e que reforça o escrito no início desta coluna: o quanto a pessoa se modifica após terminar a leitura de um livro? E o quanto dela modifica os demais ao entregar algum canto de si mesma nas entrelinhas de seu senso de mundo? Muito.