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O racismo nos segmentos desportivos

Muitos são os debates, textos, reuniões tratando do tema do racismo em diversas situações. Cabe a nós, que minimamente tivemos a oportunidade de ter contato com a cultura, a história e a leitura, a responsabilidade do combate ao tema.

E isso porque não pode a sociedade, no estágio atual, continuar a tratar como situação normal a negada questão racial, o tratamento diverso por questão de cor de pele, de modo absolutamente imoral e inconstitucional.

Como ocorre em outras nações do mundo, o que se observa no futebol é um reflexo do que acontece nas ruas. No Brasil, principalmente, como conseguimos demonstrar nas poucas linhas acima, um país com a maioria da população negra, consegue segregar-se em diversos segmentos.

Essas segregações, quando se trata de paixão, como é o futebol, contribuem de modo absurdo para ocultar uma série de desigualdades que não conseguiram dissolver-se ao longo dos tempos.

A sociedade brasileira ainda que muitas pessoas tentam negar, demonstra uma noção de superioridade do homem branco, que tem formação acadêmica em detrimento ao homem negro, no mesmo patamar. Essa é uma consciência implantada na sociedade desde as escolas primárias até o nível superior.

E, no futebol, não é diferente. Basta um olhar para o campeonato de primeira divisão e perguntar se podemos citar sem esgotar os dedos das mãos, dirigentes negros, incluindo aqui, treinador, diretor de futebol e presidente de clube. Já no campo de futebol, certamente teremos a maioria dos jogadores como negros, morenos ou afrodescendentes.

A importância da popularização do futebol no Brasil, para o afastamento dos preconceitos, destacou entre seus maiores ídolos jogadores negros, morenos, enfim, legítimos brasileiros, tais como: Leônidas, Zizinho, Didi, Domingos da Guia, Garrincha e Pelé.

O êxito dos jogadores acima citados, abriram portas para que os novos jogadores brasileiros pudessem usufruir de uma estrada mais limpa, com menos preconceitos, pois, o rei do futebol é brasileiro e negro.

Porém, o combate a discriminação, ao preconceito, ao racismo, tem que ser diário, com amplos exercícios de cidadania, evitando ataques implantados na memória desde a pré escola.

Essa cultura de ataque a um jogador do time rival, por conta de sua cor da pele, traz a questão da discriminação e do preconceito, devendo ser combatido por todos, em um exercício diário.

Certamente, não iremos erradicar o racismo, o preconceito, contudo, teremos um início de valorização do povo brasileiro, em sua maioria, negros e mestiços. Movidos pela paixão de clubes, de mãos dadas, certamente será um caminho facilitador para as futuras gerações. 

A responsabilidade social clama por essa união, por essa chave de desempenho cultural. Vamos implantar uma cultura desportiva, incluindo a paixão das torcidas, sem fazer um racismo que muitos denominam estrutural ou social.

Infelizmente, de geração em geração, o preconceito, a discriminação do homem pelo homem, continua. Percebemos o quão enraizado está na medida em que ouvimos, em veículo de comunicação esportivo que, por um erro na prática do futebol, o profissional deverá “voltar para senzala” para aprender.

Somente quando o homem puder ter um olhar para seu semelhante com total dignidade e criticá-lo de forma profissional, sem dar ênfase a “piadas” ou “sátiras” de cunho preconceituoso, começará um profundo processo de transformação de discurso na sociedade.

A estrutura do futebol, por conta de seu início de cunho europeu, é racista. O atleta que se posiciona contra o racismo, não tem proteção da instituição, haja vista o exemplo do goleiro Aranha, do Grêmio.

Joaquim Nabuco, no movimento abolicionista, já mencionava “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil”.

Oxalá permita que velhos preconceitos fiquem para trás e o limiar de uma nova geração caminhem a passos largos e colham os frutos dessa luta. Lembrem-se: foram 300 anos de escravidão e estamos a 132 da abolição da escravatura.

Carlos Roberto Elias é Advogado Criminalista, Professor Universitário da Faculdade Zumbi dos Palmares e Diretor Cultural e de Responsabilidade Social do Sport Club Corinthians Paulista.