“O racismo não dorme, é um dos sistemas mais sofisticados do mundo”, afirma Cristiane Sobral

Fonte: Jornal Tribuna de Minas: https://tribunademinas.com.br/especiais/colunas/sala-de-leitura/02-02-2021/o-racismo-nao-dorme-e-um-dos-sistemas-mais-sofisticados-do-mundo-afirma-a-escritora-e-atriz-cristiane-sobral.html

“É importante usar as categorias mulher e negra para definir pertencimento?” Lanço essa pergunta para a escritora, atriz e professora de teatro carioca, radicada em Brasília, Cristiane Sobral. Fui instigada pela leitura do novíssimo livro “Águas d’ilê” (170 páginas), onde encontro 39 narrativas inspiradas na força feminina e matriarcal negra representada por Oxum e onde Cristiane assina três contos que trazem uma reflexão sobre a condição da mulher negra. Também fui estimulada pela própria história de vida e de resistência de Cristiane, a primeira atriz negra a graduar-se na Universidade de Brasília (UNB), no ano de 1990.

“É importante marcar as categorias homens, brancos, ricos para definir pertencimento? Respondo com a mesma pergunta invertida para desafiar o óbvio. Na maioria das obras que lemos durante a vida, esse é o movimento presente, mas o branquismo está tão naturalizado e o negro sempre tão invisível ou em posições tão estereotipadas que a sua simples menção da sua existência configura um estranhamento. Também escrevo personagens brancos, mas o que muda sempre é o ponto de vista, isso é chave nas formas de arte e representação”, dispara Cristiane, autora de nove livros, entre os quais “Dona dos ventos” (Patuá), “Não vou mais lavar os pratos” (Garcia) e “Terra Negra” (Malê). Em 2020, ela celebrou duas décadas de sua primeira publicação nos Cadernos Negros, organizado pelo grupo Quilombhoje. O coletivo cultural foi fundado em 1980 com a proposta de incentivar a leitura e dar visibilidade a textos e autores afrodescendentes.

Gestado em meio à pandemia, “Águas d’ilê” é fruto de um curso on-line de formação literária capitaneado por Cristine, e ele é lançado pelo selo editorial Aldeia de Palavras, criado em 2020. Além dela, outros 17 autores (14 mulheres e três homens), oriundos de diversas cidades do Brasil e de formações e credos diversos, assinam os 39 contos que compõem a obra: a sandumonense e doutoranda do PPG Letras: Estudos Literários, da UFJF, Patrícia Aniceto, o Juiz-forano Thalles do Nascimento Castro, além de Alyne Lima (DF), Cax Nofre (SP), Denise da Costa (CE), Gabriela Furtado (DF), Joseane Catanhede (MA), Letícia Érica Ribeiro (GO), Kátia Rocha (BA), Mírian Bispo (DF), Ricardo Caldeira (DF), Sarah Muricy (MS), Sheila Martins (RJ), Silvia Carvalho (RJ), Tânia Cerqueira (BA), Toni Edson (SE) e Viviane Martins (RJ).

“As vozes diversas apresentam vivências conscientes ou inconscientes, de forma a criar uma espécie de ficção reparadora, onde as águas são o grande tecido motriz do livro. A mulher é tema, o matriarcado, as religiões de matriz africana, a maternidade, os afetos, as subjetividades, o jeito de ser e de viver do negro brasileiro, entre outros. As identidades influenciam totalmente, são vozes outras, vivências que, com suas narrativas, buscam impactar o imaginário coletivo”, assevera Cristiane, autora convidada da coluna Sala de Leitura desta semana. Para responder às minhas perguntas, ela contou com a colaboração dos escritores Joseane Cantanhede, Toni Edson, Cax Nofre e Kátia Rocha.

Marisa Loures – Aonde vocês, autores e autoras, querem nos levar nesse mergulho às “Águas d’ilê”?

Cristiane Sobral – O projeto do livro surgiu no curso on-line formação literária com publicação que ministrei com o cocriador da proposta do curso, Ricardo Caldeira, no primeiro semestre de 2020. São subjetividades que se autorizaram nesse universo tão restrito que é o da literatura. Muitos tinham guardado em segredo por anos o desejo de publicar. Queremos levar o leitor ao livro, produto intelectual que contempla conhecimento e subjetividades. São histórias com pontos de vista de escritura afetivos e libertadores. Vale destacar que alguns protagonistas dos 18 contos não costumam ser nem personagens na história da literatura brasileira. Fazendo referência ao tema central, sendo a água essencial à vida, o desejo é que chegue até as pessoas, tenha lugar nas casas, bibliotecas, nos estudos acadêmicos, livrarias de pequeno e grande porte. É uma obra que assenta a força da palavra que rompe, alimenta e preenche tudo.

– O livro chega aos leitores no ano em que você completa 20 anos da sua primeira publicação nos Cadernos Negros 23, organizado pelo grupo Quilombhoje Literatura (SP). Em um artigo publicado na Folha de S.Paulo, o escritor Tom Farias reflete sobre o profundo processo ideológico de silenciar o legado de autores negros, passando pelas tentativas de embranquecer Machado de Assis e a exclusão de inúmeros escritores da academia e do cânone. Um exemplo é a não eleição de Conceição Evaristo na ABL. Lanço um questionamento feito por ele: Que medo é esse que a indústria do livro tem de autoras e de autores negros brasileiros?

 Nessas minhas duas décadas de trabalho na literatura, participei de diversos encontros literários onde conheci muitos autores não negros, também negros e negras, também pesquisei e li muito sobre o tema. O racismo não dorme, é um dos sistemas mais sofisticados do mundo. Desde o escravismo, a humanidade de negros e negras é vilipendiada. Os Cadernos Negros, com 43 obras publicadas, são até hoje uma escola literária que eu jamais encontraria no cânone da literatura brasileira. A indústria do livro, recusando qualquer critério de unanimidade, publica, a título de exotismo, autores negros e negras, principalmente estrangeiros, para chancelar os critérios de excepcionalidade e exceção que marcam a história do negro no nosso país. Se existe algum medo é o de que negros e negras se libertem e assumam os seus espaços de direito como maioria da população. Essa invisibilidade confirma o racismo estrutural com seus esquemas de privilégios para a branquitude. Quem dá conta de milhões de brasileiros pretos e pardos e também os não negros lendo literatura negra? O que isso pode gerar no país que tem preconceito de ter preconceito? O racismo contribui para a concentração de renda e as desigualdades. A literatura negra produz um inevitável letramento racial, seria uma conscientização nacional sem volta. Como um país multirracial não contempla a cultura negra? Editoras como a Mazza, Nandyala, Malê, Oguns Toques, Ciclo Contínuo Editorial, Aquilombô e o Selo Ferinas  são algumas das concebidas com foco na publicação de autores negros, alternativas no enfrentamento. O mercado editorial fechou 2019 com um faturamento de 5,6 bilhões segundo dados da Nielsen Book para a Câmara Brasileira do Livro (CBL) e Sindicato Nacional de Editores de Livros (Snel). Considerando a realidade que aponta a participação de menos de 5% de autores negros no total dos autores que publicam, fica nítido o abismo racial e o apartheid econômico.

– “Águas d’ilê” foi lançado pelo seu selo editorial Aldeia de Palavras. Qual é a proposta do selo e quais são os projetos em andamento? Ele nasce, justamente, para romper os silêncios históricos no mercado editorial brasileiro ainda restrito para os negros?  

 A proposta do meu selo é publicar autores negros e oportunizar publicações de qualidade e processos de criação editorial mais transparentes, inclusive, preparando o autor para vender e divulgar as suas obras. Isso é fundamental para pessoas que não têm conhecimento dos meandros do mercado literário, sobre o qual aprendo todos os dias. Também pretendo defender a ideia de que não é necessário ser rico nem branco para publicar e vender os seus livros, construir uma carreira como escritor ou escritora nesse país. Como somos pequenos, em 2020, lançamos “Águas de Ilê”, de contos, “Ilha de palavras”, livro de poesia em forro e criolo, pelo projeto de formação literária com publicação “Ilha de Palavras”, realizado em parceria com Leila Quaresma, da Embaixada do Brasil e São Tomé e Príncipe e Janaína Vianna, do Leitorado Brasileiro na Universidade de São-Tomé. Da minha equipe, preciso destacar as participações fundamentais do cocriador do projeto e diretor de arte,  Ricardo Caldeira, da produtora e também escritora Alyne Lima, da prefaciadora Luana Reis, poeta e professora, e do Professor e artista visual Nelson Inocêncio, criador das ilustrações da capa e da logomarca da editora. Em fevereiro, lançaremos o livro “Conexões afro-mulheristas”, com poesias de Vitória Régia Izaú, professora Dra. da UFMG e militante negra residente em Belo Horizonte.

– Você tem uma vida dedicada à arte, à literatura. Foi a primeira atriz negra a graduar-se na Universidade de Brasília (UnB). Em que momento você se percebeu poeta, atriz, professora?

 Foi um caminho traçado. Uma invenção em um meio onde eu não tive representação, não conhecia ninguém que trabalhasse na área por exemplo. Desde a infância, sonhei com os caminhos do teatro, da literatura e da educação. Muitas de nós, mulheres negras, nos anos 90, não tivemos acesso às universidades, que tinham cerca de 99% de estudantes não negros. Foi um ato quase impossível, um desejo de construir o meu corpo e fazer a gerência de minha vida a partir de perspectivas outras. O desafio diário era o fortalecimento da autoestima, a autoconfiança, o enfrentamento dos estereótipos e de um enredo programado pelo sistema que eu enxergava ali no Rio de Janeiro, no meu bairro, na igreja, na escola, nas conversas na frente de casa. Minha mãe também era professora e líder comunitária, com ela aprendi a refletir sobre o mundo à minha volta. Acompanhar mamãe e também duas primas cariocas que eram militantes do movimento negro, ouvir histórias de negros e negras em seus reinados antes do escravismo, me trouxe uma insubordinação, um sentimento de que nossa ancestralidade foi forjada na riqueza e na intelectualidade.  A realidade apresentada pelas escolas e pelo senso comum nunca me bastou.O conteúdo continua após o anúncio

– E como foi o processo de criação desses contos que integram “Águas d’ilê”? Sua história de vida está presente neles?

– A partir do curso, os autores aprenderam um pouco sobre a literatura, seus meandros, os gêneros literários, também fizeram exercícios, produziram textos retrabalhados na etapa da mentoria. Minha história de vida não é tema do livro.  Tanto os meus contos como os textos dos outros autores partiram de uma temática livre. Claro que nossas vivências, de um jeito ou de outro, ficam impressas em tudo o que escrevemos, esse é um dos desafios da ficção.

– Em 2019, você palestrou sobre arte e negritude em nove universidades estadunidenses, inclusive Harvard. Também sei de convites para participar de feiras literárias em países africanos e europeus. Para mim, isso é muito representativo, pois vejo que é possível romper com as tentativas de silenciamento da voz da mulher negra. Que análise você faz disso?

 O que pude perceber em oportunidades que tive de falar em outros continentes e cidades é a valorização da nossa produção literária negra no campo da alta literatura, assim como em estudos e pesquisas acadêmicas. Isso enriquece sobremaneira a literatura brasileira. Desde o século XIX, a literatura negra tenta romper silenciamentos, aí estão muitas mulheres negras escrevendo em gêneros e temáticas diversas, nomes como Auta de Souza, Geni Guimarães, Miriam Alves, Conceição Evaristo, Eliana Alves Cruz, Lia Vieira, Elizandra Souza, só para citar alguns. A literatura negra sofre, aqui no Brasil, um processo de censura econômica.  Vejam vocês que Carolina Maria de Jesus vendeu 10.000 exemplares em uma semana, é preciso estudar esse fenômeno. Cem anos antes, Maria Firmina dos Reis, também negra, publicou o seu romance Úrsula, primeira obra abolicionista do Brasil e considerada a primeira publicação escrita por uma mulher no país.

– Quais são seus próximos projetos artísticos e como você coloca a sua literatura na rua?

 Estou publicando pela Editora Malê, ainda neste primeiro semestre, o livro de contos “Amar antes que amanheça”. Tenho um romance que deve ficar pronto até o fim do ano. Temos já outras obras em produção pela Editora Aldeia de Palavras. Também seguirei com o projeto das oficinas literárias e estou com outros projetos no campo do teatro. Sigo também com as participações em eventos, palestras, tudo teve que ser adaptado nesse contexto de pandemia. Colocar a literatura na rua, vender livros é um grande desafio sem distribuidores, divulgadores oficiais, mas os leitores são grandes difusores, e as redes sociais, assim como a militância negra, os eventos literários nas Universidades, Centros Culturais e outros Coletivos, têm ajudado bastante.