O grande irmão somos nós

Fonte: Jornal Folha de S.Paulo – https://quadronegro.blogfolha.uol.com.br/2021/02/02/o-grande-irmao-somos-nos/

Artigo Dodô Azevedo – Quadro Negro

Muitas são as variações do mote da filosofia Ubuntu, palavra não traduzível diretamente para o português. “Eu sou porque nós somos”, “Sou quem sou, porque somos todos nós”. A arqueologia e a antropologia que tratam do período histórico quando todos os seres humanos que habitavam o planeta tinham a pele preta, confirma que as sociedades adotaram uma sistema econômico subordinado a finalidades coletivas. Como hoje o coletivo pode parecer se comportar cada vez mais na direção contrária à empatia pelo outro? Que contradição isto encerra? Segundo Rosane Borges, doutora em Ciência da Comunicação, a questão é o que ela chama de “Tiranias da subjetividade”. Parecemos que estamos agindo coletivamente, seja na votação do BBB ou na escolha do presidente da Câmara e do Senado (processos cada vez mais parecidos), mas estamos nos submetendo à subjetividade de um “eu” que nem oculto é. O grande irmão somos nós. A convite do Quadro-negro, a doutora Rosane, escreve sobre essas tiranias que nos habitam.

Tiranias da subjetividade – Por Rosane Borges,  jornalista, doutora em Ciências da Comunicação, professora colaboradora do Colabor (ECA-USP)

Como todos sabem, alguns  acontecimentos são decisivos para marcar uma época (lembremos: época em grego significa parênteses, abre e fecha). A COVID-19 é candidatíssima para conduzir o século 21 à pia batismal da nova era.

Além da pandemia, os traços essenciais do século 21 deverão ser partilhados com outros eventos e tendências, a exemplo do excesso de “eu”, que também se oferece todo prestimoso  para ser protagonista do nosso tempo.

Num mundo em que somos obrigados a nos comportar como Você S/A, empreendedores de si próprios, o eu agiganta-se, ameaçando o sujeito em sua errância e precariedade.

Num contexto marcado pela reivindicação da fala, direito inegavelmente caro, principalmente para os grupos historicamente excluídos,  testemunhamos ruídos advindos de diferentes focos que não consideram processos de escuta e acolhimento.

O termo Tiranias da subjetividade, que bem poderia ser designada como tiranias do “eu”, presta-se a percorrer uma trajetória pontilhada por alguns desafios: como construir uma pessoalidade que não se encerra no “Eu”?

De que forma falar de si onde não há um si mesmo?

Como evocar um “Eu” que se desdobra em “Nós”?

Como fazer do “Nós” uma plataforma de compartilhamento de afetos e realização da alteridade?

De que maneira revisitar os postulados do sujeito ocidental, sempre em ruínas, e reelaborar outras perspectivas, considerando as vozes dos condenados da terra sem cairmos na miserabilidade do “Eu” ?