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Nós queremos respirAR

A República brasileira, fundada sem povo, sob os escombros da escravidão e pela inflexão e tutela dos quartéis, já nasceu conceitualmente distorcida e inviabilizada. A esperança de sua correção e restauração repousou na capacidade ética, na grandeza do espirito e no compromisso franco e honesto, da elite dirigente do futuro em conduzir e buscar de modo inegociável os propósitos de uma república sólida, genuína que, ao final, se revelasse um Estado autônomo, impessoal e neutro. Coisa de todos.

O imperativo mais urgente e inadiável que se apresentou, foi a necessidade e exigência inexorável de promover  remoção dos entulhos do lixo tóxico da escravidão, reconstruindo e reformulando  o pensamento e atitude mental construída a partir da racionalização e   cristalização do caráter de coisa e de mercadoria do negro. E, consequentemente, da sua naturalização como indivíduo, inferior, nocivo, periculoso e indigno para receber e usufruir de tratamento humano, justo e igualitário.

Não realizar essa profunda, exigível e inderrogável transformação, e não construir os mecanismos, ações e políticas estatais para superar esse quase sobre-humano desafio, seria negligenciar de maneira preordenada e, novamente, autorizar, associar e acumpliciar com a mercância e comércio dos cidadãos. Seria perenizar os lucros e rendimentos econômicos e financeiros extraídos dos corpos negros que estruturou e justificou o regime da escravidão.

Sem extirpar o racismo e sem impedir a prática da discriminação racial contra os negros como prática social licenciada, o resultado seria a formulação da distinção dentro da isonomia republicana. Seria antecipar e estimular a reconstituição da exploração e usura dos corpos negros, agora, pela exclusão e segregação do espaço público e privado, principalmente, pela apropriação, interdição e monopólio dos bens, frutos, riquezas, oportunidades e privilégios sociais. Seria refundar o sistema de servidão, no coração da república e do Estado democrático de direito.

O resultado certeiro seria o uso político dele pelos demais grupos sociais, para manutenção, reprodução, proteção e garantia dos privilégios, fragilização da competição social, apropriação indébita e usufruto irregular dos espaços, ambiências e oportunidades que, por direito e justiça, são pertencentes, disponibilizáveis e assegurados aos negros.

Desgraçadamente, nem a elite de dantes nem as que a sucederam estiveram dotada  da estatura, grandeza e capacidade que a república conceitualmente sempre exigiu. Disso resultou como legado, uma nação de Apartheid racial garantida e suportada por um Estado democrático de direito, mas, sobretudo, pela brutalidade e crueldade da violência sistêmica e estrutural pública e privado que, perversa e estrategicamente, interdita, cerceia, distorce, apaga e desconstitui a presença, a estética e o valor da construção e realização do negro na sociedade. Um país todo que silencia e que, casuisticamente, dissimula e se omite diante do genocídio autorizado que violenta e elimina impunemente as vidas negras.

George Floyd, nos Estados Unidos e todos os George Floyd do Brasil e do mundo não podem ter suas vidas arrancadas pelo racismo. Precisam e têm o direito sagrado de poderem livremente respirar. É contra este estado de coisas que nos levantamos. É contra esse joelho invisível que nos sufoca e asfixia todos os dias e que nos organizamos nos juntamos e decidimos mais uma vez, coletivamente, fortalecer e amplificar nossas energias. É com espírito de concórdia, de diálogo e de reinvindicação, mas também com a capacidade de organização, trabalho, realização, foco e direcionamento, que nós e nossas instituições, conduziremos nossas habilidades para responder de maneira objetiva e propositiva as demandas e desafios mais urgentes e emblemáticos dessa questão.

O Movimento AR já nasce grande, vistoso e cheio de entusiasmo. Queremos um país de iguais, em que todos, independentemente de raça ou cor da pele possam autonomamente encher seus pulmões, onde e quando quiser  e de forma espontânea, desimpedida e soberana, possam livremente respirar. Para nós As Vidas Negras Importam de Verdade. Tirem os joelhos dos nossos pescoços: Nós queremos respirar!!!

José Vicente

Reitor da Universidade Zumbi dos Palmares

Presidente do Conselho Fundador da Afrobras

Advogado. Doutor em Educação

Artigo publicado dia 30 de junho de 2020 na Folha de S.Paulo