Negros em Davos: o Brasil chegou primeiro

Fonte: Blog José Vicente na revista Veja: https://veja.abril.com.br/blog/jose-vicente/negros-em-davos-o-brasil-chegou-primeiro/

Leia o artigo do líder do Movimento AR desta semana em seu blog na revista Veja. José Vicente fala sobre a importância do Fórum Econômico Mundial de Davos tratar o racismo estrutural e a discriminação contra negros na economia, como foco central das discussões.

Negros em Davos: o Brasil chegou primeiro.

Nem Floyd nos seus mais estonteantes devaneios poderia imaginar que a vida simples e com poucas alternativas dadas pelos céus trazia embutido um propósito tão grandioso e avassalador. Muito menos imaginaria que para torná-lo realidade precisaria, primeiramente morrer, e assim elevar a régua e alinhar um novo paradigma politico e social na compreensão, solidariedade e compromissos para superar a desigualização e a violência produzida pela raça e pela cor da pele; pelo racismo.

A força e a energia gerada pela simbologia da sua triste injusta e lamentável morte que têm percorrido, impactado e produzido intervenções e mudanças importantes nos mais variados ambientes públicos e privados do mundo – e do Brasil – chegou ao mais prestigiado, qualificado e poderoso ambiente econômico do planeta. Agora, junto com a compreensão de que é necessário um novo contrato social focado na dignidade humana e na justiça social e que promova concomitantemente o progresso da sociedade e desenvolvimento econômico, foi integrada a indispensabilidade de tratar e superar os males do racismo e da discriminação.


Com essas justificativas que integraram o foco central das discussões do Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, o racismo estrutural e a discriminação contra os negros na economia, nas empresas e nas sociedades, entram definitivamente no discurso e, quem sabe, definitivamente na agenda e na prática da elite econômica mundial e sua cadeia de interação. Como bem definiu e formalizou sua nota oficial, é imprescindível que as empresas reconheçam que para haver ambientes de trabalho racialmente justos é indispensável enfrentar – e combater – o racismo sistêmico, desde a mecânica estrutural e social de suas próprias organizações – o “viés inconsciente” – até o papel que desempenham nas comunidades em que operam e na economia em geral. Tudo isso sob, obrigatoriamente, a batuta do seu Presidente.


Por isso, o lançamento da Coalizão de 48 empresas para combater a discriminação contra os negros no mercado de trabalho, ampliar suas presença nas empresas e conscientizar o alto escalão sobre o valor da diversidade, anunciada e lançada no prestigiado Fórum é um importante avanço que precisa ser registrado, valorizado, enaltecido e disseminado. Por todos compromisso com esses valores civilizatórios.


Apesar dos méritos e da grandiosidade da ação digna de aplauso, Davos chega atrasado. No Brasil, a Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial congrega muito mais empresas e alcançam seis anos de vida. Juntas essas corporações ao longo dessa convivência já criaram novas práticas, instituíram mudanças, aprimoraram processos e procedimentos e substituíram condutas e atitudes ultrapassadas por posturas inovadoras e transformativas.

Constituíram um importante espírito de corpo e despertaram em seus presidentes um papel ativo e altivo de liderança na diversidade. É do Brasil e resultado da cocriação dessas empresas, o pioneiro, inédito e histórico IIRE – Índice de Igualdade Racial Empresarial, do mundo. É do Brasil, o primeiro programa de trainees exclusivos para negros do mundo construído em muitas mãos e inaugurado pelo Magazine Luiza, um dos maios atuantes e inspiradores membros da Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial.


Todavia e mais importante que pioneirismos, o importante é transformar e ampliar essa fabulosa janela de oportunidades, e definitivamente, consolidar o combate ao racismo e a grandeza da diversidade como um valor social inegociável e um valor empresarial imprescindível para o negócio e para a ação comunitária empresarial na sociedade e na sua cadeia de relacionamento. As empresas podem – e devem – ajudar a mudar o mundo: o Fórum Econômico Mundial está indicando caminhos. Floyd já fez soberbamente sua parte.