Mulheres vão crescer sabendo que podem ser o que quiserem

Fonte: Jornal Folha de S.Paulo: https://www1.folha.uol.com.br/folha-100-anos/2021/02/mulheres-vao-crescer-sabendo-que-podem-ser-o-que-quiserem.shtml

Este texto faz parte da série Cartas para o Futuro, em que colunistas, repórteres e editores da Folha imaginam os cenários das suas respectivas áreas de atuação em 2031.



Bom dibre, Renata!

Talvez essa expressão tenha envelhecido em 2031, quando você for ler essa carta. Mas era o que você costumava dizer para saudar as pessoas de uma forma atemporal e passando uma boa mensagem.

Afinal, em 2021, era preciso ter muito “dibre” para sobreviver no Brasil presidido por Jair Bolsonaro. Como mulher e jornalista esportiva, então, era preciso ser uma “dibradora nata”.

Já se passaram dez anos, acho que é seguro te pedir para começar o dia abrindo o jornal, ou o site dele, caso o papel não resista às transformações do tempo. Vá até a seção de esportes. Acho que ficará orgulhosa.

Em 2021, você era a única colunista de futebol do jornal, lembra? Havia ainda a doutora Katia Rubio, a maior especialista em história olímpica que já existiu, para falar dos outros esportes. Duas mulheres brancas e três homens brancos, os colunistas esportivos do jornal num país onde 54% da população é negra. Não era um problema exclusivo desta Folha.

 Vai, pode ligar a TV. Vamos ver como estão os programas de debate esportivo. Enquanto escrevo esta carta, zapeei os canais de esporte e encontrei: seis homens e uma mulher em um deles na TV aberta; três homens e uma mulher apresentando no outro, da TV fechada; mesma proporção em mais um dos canais pagos. 100% brancos. E se já citei aqui a maioria negra na população brasileira, vale mencionar também a maioria feminina: elas são 51%.

No hoje, para você um longínquo 2021, as pessoas tinham um costume muito feio de tratar como “natural” aquilo que era resultado de preconceitos que elas não queriam enxergar.

Achavam natural abrir o jornal na página de esportes e só encontrarem notícias sobre homens. Escritas por homens. Comentadas na TV por homens. Normal, né? Mulheres não costumam gostar de esportes, constatavam –sem reconhecer a lógica machista que levava a essa consequência.

Da mesma forma, não percebiam que o esporte estava cheio de protagonistas negros no campo, mas não repetia essa tendência quando se olhava para fora das quatro linhas, entre técnicos, dirigentes, ah, e por que não, jornalistas. Racismo é também uma mera coincidência, né?

A ‘nova Marta’ deve ser assunto em todos os jornais, ao contrário da antiga, que passou tanto tempo sem nenhum holofote

Renata Mendonça

Colunista da Folha

Mas, em 2031, o mundo é outro. Você deve ligar a TV e conseguir escolher se quer ver jogos de futebol feminino ou masculino, ou um depois do outro, por que não? E a “nova Marta” deve ser assunto em todos os jornais, ao contrário da antiga, que passou tanto tempo nos presenteando com genialidade em campo sem nenhum holofote. Formiga, de certo, virou treinadora de sucesso e faz companhia a uma nova geração de mulheres no comando de times femininos e masculinos pelo país. Não vai me dizer que ela ainda está jogando aos 52 anos? Não duvido nada com o fôlego dessa mulher. ​

Só imagino a Mamãe Cristiane rodeada dos herdeiros comandando o sub-10 do Santos, as “sereinhas da Vila”. A essa altura, as categorias de base do futebol feminino já devem ser uma realidade no país todo.

Bom, vou parar por aqui porque você ainda deve ter muito a fazer hoje. As crianças devem estar atrasadas para o futebol. Ou vai me dizer que elas odeiam futebol por não aguentarem mais ver a mãe falando disso? Tudo bem, ele pode gostar de balé, que você detesta, e ela de beisebol, seu maior tédio. O que importa é que os dois vão crescer sabendo que podem ser o que quiserem, porque você e tantas outras “dibradoras natas” nunca desistiram de lutar para que esse mundo “sem padrões” fosse possível.