Hospital de Campinas tem rotina de práticas racistas contra gestantes negras

Fonte: Portal Yahoo / Alma Preta: https://br.noticias.yahoo.com/hospital-de-campinas-tem-rotina-de-praticas-racistas-contra-gestantes-negras-182219774.html

  1. Médicos fazem um procedimento chamado “lâmina”, que consiste em forçar o períneo da gestante para acelerar o processo, mesmo que a paciente se queixe de dor e desconforto
  2. No local, as gestantes negras e pobres recebem menos atenção dos médicos que as não negras
  3. No dia 22 de abril, gestante negra quase teve o parto negado por causa de tranças no cabelo

Texto: Juca Guimarães Edição: Nataly Simões 

O Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Caism) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no interior de São Paulo, é considerado pelo governo do estado um importante equipamento de atendimento às mulheres. Segundo relatos de pacientes e fontes ligadas à área da saúde, as mulheres e gestantes negras, sobretudo as pobres, são vítimas rotineiras de racismo e violência obstétrica na unidade hospitalar.

De acordo com relatos coletados pela Alma Preta Jornalismo, os médicos recorrentemente fazem um procedimento chamado “lâmina”, que consiste em forçar o períneo da gestante para acelerar o processo, mesmo que a paciente se queixe de dor e desconforto. “Essa intervenção, feita em gestantes negras e pobres, é um procedimento que pode causar edema, hematoma e dor na vulva no pós- parto”, conta uma das fontes ouvidas pela reportagem.

As pacientes negras também são submetidas a constrangimento no momento de exames de toque vaginal. “No momento do exame se reúnem o chefe com mais dois ou três residentes para examinar a paciente e todos a tocam. Isso gera desconforto. Elas não sabem e não são informadas que têm o direito de dizer não em uma situação dessas”, detalha a fonte.

Equipe médica falou em cancelar parto de gestante negra com cabelo trançado

Débora, moradora da cidade de Cosmópolis, na região de Campinas, levou na quinta-feira (22) a filha de 22 anos para fazer o parto no hospital universitário. Na unidade, a equipe médica disse que o parto poderia ser cancelado em razão do penteado da gestante.

“Eles falaram que poderiam cancelar o parto porque ela estava usando trança. A minha filha passou uma gestação de alto risco”, conta Débora.

No dia anterior, o hospital de Cosmópolis não realizou o procedimento de cesárea por conta do alto risco e encaminhou a gestante para o centro de atendimento da universidade estadual.

As tranças da paciente tinham implantes de fios sintéticos, o que é um fator que poderia atrapalhar o parto, mas segundo a família não era motivo para cancelar todo o procedimento. Depois que a família reclamou, o parto foi realizado. A paciente e o bebê estão bem.

Segundo uma fonte da área da saúde, situações parecidas já aconteceram no hospital universitário. “Em casos de cabelo sintético da paciente, eles [médicos] querem tirar o cabelo sem respeitar sua origem ou até mesmo o gasto de tempo e financeiro que ela teve para colocar o cabelo. A solução para isso é isolar o cabelo com um tecido de algodão [camisola ou lençol], que protege a paciente e o cabelo sintético não conduz a eletricidade do cautério utilizado na cirurgia”, explica.

Ainda de acordo com a fonte ouvida pela reportagem e que conhece a rotina do hospital universitário, no local as gestantes negras e pobres recebem menos atenção dos médicos que as não negras.

“Eles escolhem as gestantes que vão receber analgésico para o parto e não oferecem a opção da cesária. Pela lei, se a gestante está com 39 semanas de gestação ela pode pedir uma cesariana, mas os médicos do Caism não acatam e conduzem um parto normal não desejado, o que pode ser traumático”, revela.

Racismo obstétrico

A parteira Nabila Pereira explica que os procedimentos médicos relizados sem autorização prévia, assim como excessos de exames desnecessários e a exigência do corte do cabelo são indicadores de racismo obstétrico. “As pessoas negras são vistas como exóticas e as pessoas brancas não”, ressalta a obstetriz.

O artigo “A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil”, publicado em 2017 e coordenado pela pesquisadora Maria do Carmo Leal aborda a experiência de mulheres gestantes negras. O estudo usou como base as informações do levantamento “Nascer no Brasil: Pesquisa Nacional sobre Parto e Nascimento”, feito com cerca de 24 mil mulheres gestantes entre 2011 e 2012.

Segundo os dados, 65,5% das mulheres negras consideraram o pré-natal inadequado. Entre as gestantes brancas, esse percentual foi de 57,7%.

“O racismo obstétrico é a violência racial que as pessoas negras sofrem. Ele é reproduzido tanto a partir da negligência como em negar a presença de acompanhante, informações e medicamento para o parto, por conta do mito do estereótipo de que a pessoa negra é mais resistente que a pessoa branca”, lembra Nabila, que também é ativista no combate ao racismo e violência obstétrica e integrante do coletivo de parteiras pretas de São Paulo.

Outro lado

Alma Preta Jornalismo entrou em contato com a Secretaria Estadual de Saúde do Estado de São Paulo, com o gabinete de comunicação do governador João Doria (PSDB) e com a Secretaria Estadual da Casa Civil questionando a rotina de violência racial no hospital de Campinas. As perguntas enviadas por e-mail não foram respondidas até a publicação desta reportagem. Caso o governo estadual se posicione, o texto será atualizado.