Futebol se ajoelha em protestos contra o racismo, mas segue acumulando injúrias raciais em campo

Fonte: ESPN: https://www.espn.com.br/futebol/artigo/_/id/7545917/brasileiro-e-anunciado-pelo-zenit-e-sofre-insultos-racistas-nas-redes-sociais

Há pouco menos de um ano, o futebol se somava ao movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam). Ao redor do mundo, jogadores começaram a se ajoelhar antes das partidas para chamar a atenção na luta contra o racismo. Só que o bonito gesto está muito longe de se tornar uma realidade dentro do próprio futebol, que vive uma temporada repleta de acusações de injúrias raciais.

Neste domingo, foi a vez de o zagueiro Mouctar Diakhaby, do Valencia. No confronto contra o Cádiz, ele acusou o rival Juan Cala de lhe proferir palavras racistas. Indignado, deixou o campo e foi seguido por todos os companheiros do Valencia.

Nos bastidores, mais um ato problemático: os jogadores do Valencia se disseram ameaçados a continuar a partida, sob risco de perder pontos em caso contrário. O time acabou voltando a campo, mas sem Diakhaby, que não estava em condições de jogar, e acabou derrotado por 2 a 1.

Depois, em súmula, o juiz da partida disse que Diakhaby acusou Cala de lhe chamar de “negro de merda”.

E o problema maior é que o caso ficou longe de ser um problema isolado. Pelo contrário! A temporada teve injúrias espalhadas por todo o mundo.

Assim como o Valencia, PSG e Istanbul Basaksehir também deixaram o campo em dezembro, em pela Champions League. E o problema naquela vez foi com a arbitragem.

Logo no começo do campeonato, o auxiliar-técnico do time turco, o camaronês Pierre Webó, acusou o 4º árbitro do jogo, Sebastian Coltescu, de tê-lo ofendido com uso de termo racista ao lhe chamar de “aquele cara negro”, o discriminando pela cor de sua pele.

PSG e Istanbul só voltaram a campo no dia seguinte, com um novo quadro de arbitragem. O árbitro foi suspenso até o final da temporada.

Neymar foi um dos que liderou o movimento de abandonar aquela partida. Antes disso, o próprio brasileiro havia sido alvo de uma injúria.

Em setembro, ele acusou o zagueiro Álvaro González de chamá-lo de “macaco filho da p***” em duelo entre PSG e Olympique de Marselha. Descontrolado, ele ainda acabou expulso naquela partida e saiu gritando que o rival era racista.

Álvaro acabou absolvido em julgamento da Federação Francesa, que alegou não ter imagens suficientes para puni-lo.

Ibra x Lukaku

Em janeiro, duas das maiores estrelas do Campeonato Italiano se envolveram em forte discussão. Em meio a troca de ofensas, Ibrahimovic teria dito a Lukaku: “Vai fazer sua m**** de vodu! Seu idiota!”.

As palavras se referiam a ancestralidade africana do rival e também a um episódio envolvendo a mãe de Romelu Lukaku. Quando trocou o Everton pelo Chelsea, o atacante recebeu o conselho para fazer a transferência de sua mãe, que se consultou com um vidente vodu.

Lukaku se revoltou e uma confusão se instaurou em campo. Federação Italiana investigou o caso, mas descartou racismo e aplicou apenas uma multa no sueco, que garantiu que não teve cunho racista em suas frases.

Há um mês e meio, uma acusação de racismo havia vindo da Escócia. Glen Kamara, meia do Rangers, disse que foi alvo de injúrias vindas de Kudela, zagueiro do Slavia Praga, em jogo pela Liga Europa.

“Ele então veio até mim cobrindo sua boca, inclinando até o meu ouvido, e proferiu as palavras: ‘Você é uma p*** de um macaco, você sabe que é”, disse Kamara.

A Uefa abriu investigações sobre o caso, mas nenhuma atitude foi tomada até agora.

No Brasil

O Brasil também teve acusações recentes de racismo.

Em dezembro, Gerson deixou o campo revoltado depois de uma vitória do Flamengo sobre o Bahia e disse ter ouvido do colombiano Índio Ramirez as seguintes palavras: “Cala boca, negro”.

O STJD abriu investigações, mas disse não haver provas o suficiente e arquivou o caso.

Pouco antes do problema com Gérson, um outro caso já havia chocado o Brasil. Um vídeo viralizou nas redes sociais com Luiz Eduardo, um menino de apenas 11 anos, chorando por ter sido vítima de racismo. Ele disse que o treinador do time rival mandava seus jogadores “fechar o preto na marcação”, em referência a ele.

Se dentro de campo a situação é ruim, nas redes sociais ela é pior.

Inúmeros casos se empilharam pela temporada, principalmente pela Inglaterra, que tenta buscar ações para frear esse tipo de comportamento.

A torcida do Manchester United, por exemplo, já foi racista com o brasileiro Fred, com Rashford e com o zagueiro Tuanzebe. Ex-Corinthians, Kazim Richards também sofreu.

Mas o problema, claro, não é uma exclusividade inglesa. Na Rússia, por exemplo, o brasileiro Wendel foi alvo antes mesmo de chegar ao Zenit, com inúmeras ofensas racistas no post em que o clube o anunciava como reforço.

Ídolo do futebol inglês, Thierry Henry anunciou recentemente que não iria mais utilizar redes sociais em protesto contra o racismo.