Festival de artistas negros mostra que alegria é estratégia de resistência

Fonte: Portal UOL: https://www.uol.com.br/universa/colunas/mulherias/2021/04/05/festival-de-artistas-negros-mostra-que-alegria-e-estrategia-de-resistencia.htm?cmpid

Por Jéssica Ferreira, especial para o blog MULHERIAS Com Exu, senhor que transporta a informação, abrindo os caminhos, o espaço formativo Terreiros do Riso abre os trabalhos do “2º Festejo: Raízes do Riso” nesta segunda (5). A programação, que vai até 11 de abril, está recheada de espetáculos, apresentações, documentários e conversas que trazem ao centro do debate a alegria como orientadora da luta, da resistência e da denúncia.

O evento também celebra os mestres afro-brasileiros e originários, que deixaram segredos e receitas para atravessarmos períodos históricos desafiadores. A curadoria é de Vanessa Rosa e Cibele Mateus. “A gente traz o circo como força e resistência, essa coisa de espelho, para mostrar às meninas que podemos estar em qualquer lugar, da forma que queremos”, conta Loi Lima, 38 anos, palhaça do Rainhas do Radiador que vai apresentar no dia 8, às 19h, o espetáculo Quizumba. O coletivo é formado também por Aline Hernandes e Ana Pessoa, que estudam o cômico através dos ensinamentos da luta livre e da acrobacia circense.

“Somos muito apaixonadas pelo universo da luta livre, pela história de Olga Zumbano que, por volta da década de 70, ajudou a formar lutadoras brasileiras”, diz Loi. Essas mulheres, ligadas ao teatro, “viajavam o país, invadiam territórios e espaços que até então eram exclusivamente masculinos, desafiavam e enfrentavam valentões lutando em busca da emancipação, ainda que houvesse muitas histórias terríveis de morte.

No espetáculo infantil “Quizumba”, o grupo vai trazer nas brincadeiras, nas lutas, nas expressões e no cabelo crespo da personagem Ursa Maior, referências aos mestres negros que foram fundamentais na construção do circo no Brasil e, ainda assim, tiveram suas histórias apagadas. “Trago para o palco a história da dona Maria Eliza Alves, o palhaço Xamego, que é a primeira palhaça negra do Brasil, do João Alves, pai da dona Maria do importante Circo Teatro Guarany, e ainda me pergunto quais são as outras pessoas que estão aguardando por resgate”, diz Loi.

O festival vai apresentar também o documentário “Minha Avó Era Palhaço!”, que conta a história de Xamego e sua intérprete, Maria Eliza, a pioneira da palhaçaria feminina e negra no Brasil. Sua neta, Mariana Gabriel, 39 anos, cineasta, jornalista e palhaça, revive a história de sua maior mestra no documentário que dirigiu com uma grande amiga, Ana Paula Minehira.

“A ancestralidade é na verdade o caminho que veio antes do seu. Recorrer a esses recursos, às histórias vividas por seus ancestrais, ajuda na compreensão de como você pode seguir o seu caminho”, diz Mariana. E pontua: “Venho de uma família tradicional de circo, mas um circo essencialmente brasileiro, de povos originários. Meu bisavô, João Alves, nasceu em 1873, filho de uma mãe escravizada, Leopoldina. Temos registros dele em 1896 atuando como palhaço, tocador de guizo. Com minha bisavó Brígida, indígena charrua, se tornam donos do Grande Circo Teatro Guarany.”

A beleza do registro está em contar a história de uma mulher preta que vivia do circo, em 1940, na figura de um palhaço, já que não havia espaço para a figura da mulher na palhaçaria. “Ela se tornou palhaço Xamego para substituir o irmão mais novo dela, o palhaço Gostoso, que teve uma doença grave. Havia uma necessidade da família em continuar a tradição”, conta a cineasta. “A importância de documentar vem de uma carência da memória audiovisual do circo brasileiro e, sobretudo, da falta de remontar a história do nosso povo preto.”

O filme esteve em 11 estados brasileiros, no México e na Argentina. “Eu brinco que minha avó vem me dando presentes e presentes. Essa coisa de parecer que a gente está lidando com o passado é, na verdade, um jeito de nos apropriar desse presente e do nosso futuro”, analisa Mariana.

O espetáculo “Catappum!”, que vai ser transmitido dia 8, às 20h, traz humor crítico e político ao tratar de uma cidade onde as pessoas foram mortas, sobrando apenas dois palhaços que precisam descobrir quem é o assassino. “As metáforas que atravessam essa dramaturgia estão presentes na vida das pessoas pretas. Temos que lidar o tempo todo com a morte”, diz o dramaturgo Fagner Saraiva, 31 anos.

“A gente inverte essa lógica para chegar ao riso. Afinal, como seriam esses dois palhaços pretos medindo um mundo de pessoas mortas pela aparência? O humor não está no sistema de rir apenas de si mesmo, mas rir da sociedade caótica que a gente vive”, analisa Fagner. A peça, que também é assinada por Chico Vinicius, 34 anos, saiu da gaveta e foi montada por muita insistência e teimosia. Tentativas e tentativas em editais não foram suficientes, até quem em 2019 montaram o espetáculo de forma independente, com Monique Salustiano, 30 anos, musicista e palhaça, e a diretora Mafalda Pequenino, 44 anos.

“Penso que o riso é uma das nossas maiores heranças ancestrais, que a gente trás no nosso corpo. Ele é o pilar das nossas pequenas grandes Áfricas: está no terreiro, nas escolas de samba, nos morros e favelas”, pontua Mafalda, que dirige o espetáculo. “O povo preto é um povo de muita celebração, de muitos rituais, assim como os povos originários. É esse riso que está no nosso trabalho de palhaçaria, que nos permite burlar as regras e os padrões”, conclui a diretora.