Falar de racismo faz de você um inconveniente, diz tenente-coronel da PM

Fonte: Portal UOL: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2021/03/16/falar-de-racismo-faz-de-voce-um-inconveniente-diz-chefe-de-batalhao-da-pm.htm

Integrante do grupo criado recentemente pela Ouvidoria da Polícia de São Paulo para combater o racismo nas forças de segurança pública, o tenente-coronel da Polícia Militar, Evanilson Corrêa de Souza, 51 anos, viu anos de luta incansável contra o preconceito institucional serem insuficientes para livrá-lo de ataques.

Ocupando um posto graduado na PM, Souza não escapou de virar vítima do preconceito. Em fevereiro deste ano, enquanto ele palestrava sobre racismo em um evento virtual do Instituto de Relações Internacionais da USP (Universidade de São Paulo), um dos espectadores escreveu sobre seus slides a palavra “macaco”. O crime é investigado pela Polícia Civil.

Souza, que é um dos revisores do Manual de Direitos Humanos da Polícia Militar, conta que aborda o tema do racismo quase todos os dias, mas nota que muitos ainda não estão preparados para ouvir. “Ao falar de racismo, a gente se torna até inconveniente, porque as pessoas não querem ouvir sobre isso. Mas eu não deixo de falar. Falo com meus oficiais e praças, e não deixo de colocar essa marca e levantar sempre as questões raciais.”

Atualmente, Souza comanda o 11° BPM/M (Batalhão de Polícia Militar Metropolitano), que abrange parte dos Jardins, nas proximidades com a Avenida Paulista, área nobre da capital, a região central e a Mooca, no início da zona leste.

Eu comando os Jardins do mesmo jeito que eu comandei o Jardim Ângela [periferia da zona sul]. A diferença está no aporte financeiro social, econômico e cultural das pessoas, mas o que a gente vê é que o número de pessoas negras é muito menor, diferente da periferia (…) Aqui nos Jardins são poucas as [pessoas negras] que estão numa condição igualitária em relação aos brancos. Existem muitos prestadores de serviço, muitos empregados.

Souza aponta que o “racismo institucional arrepia os quadros da polícia”, apesar de os cursos de formação da PM indicarem que uma das missões do policial é ser promotor dos direitos humanos, abordando uma pessoa pela “atitude suspeita e nunca por sua raça.”

“O policial não nasce dentro da polícia, nosso policial não vem das classes A e B. Muito pelo contrário, eles vêm das classes C, D e E. Eles estão muito mais próximos da comunidade negra, mas o estado brasileiro se constituiu de tal forma que é comum entender que o negro é um suspeito”, afirma. Souza explica que o manual da PM do qual ele é revisor trata de diretrizes para os agentes lidarem com grupos vulneráveis. “Qualquer ocorrência que diz respeito aos direitos humanos, o primeiro órgão a ser acionado é o 190.”

O tenente-coronel da PM condena as muitas prisões injustas de jovens da periferia, revertidas apenas depois de muito esforço investigativo da família. “Já é brutal qualquer pessoa ser presa injustamente, acusada de forma inidônea, independente de ser negra ou não. É uma agressão à liberdade e aos direitos da pessoa. Sendo um indivíduo negro, eu volto às questões do arrasto cultural que o Brasil tem, de que o negro é muitas vezes colocado como um ‘pré-suspeito’.”

Ter sido chamado de “macaco” não foi a primeira vez em que o preconceito racial surgiu na vida de Souza. “Na minha história de vida, poucas vezes eu tive problema com a polícia, mas tive em outros lugares da sociedade. Quando tinha 14 ou 15 anos, eu fui abordado dentro de um grande shopping de São Paulo e convidado a me retirar”, relembra. Souza sustenta que o racismo causa prejuízos sociais e econômicos. Para rebater quem desconfia dos efeitos da discriminação racial, ele diz em tom de mantra:

“O negro que não acredita no racismo é iludido ou egoísta. Quem não se vê à parte de um ambiente nitidamente apartado e se acomoda com esta situação é iludido. Aquele que acredita que os méritos de vencer são próprios e cada um tem que construir sua própria estrada é egoísta, porque não estende a mão ao par e o deixa preso no buraco sem sequer joga uma corda para a escalada”.

O trabalho da Ouvidoria da Polícia, lembra ele, não é apenas fiscalizar as polícias Militar e Civil, mas também o de “levantar as questões de relacionamento institucional que a polícia tem com a comunidade”. “Nesse contexto, a Ouvidoria apontou um dos ingredientes mais contundentes contra a instituição, que é a acusação de que a instituição promove violência contra a comunidade negra. Por esse prisma, o ouvidor achou por bem intervir e fazer a leitura exata do que é isso e como melhorar. Este é um processo extremamente positivo para a segurança pública e para sociedade em geral.”