Escola contra o racismo

Fonte: Jornal O Globo: https://blogs.oglobo.globo.com/opiniao/post/escola-contra-o-racismo.html

Por Cristovam Buarque

A escola é a mãe do racismo: tanto pela desigualdade na qualidade entre brancos e negros, quanto pelo conteúdo dos ensinamentos. Daí surge o círculo vicioso do racismo: escolas desiguais por raça, conteúdo e comportamento racista entre as crianças e, consequentemente, na fase adulta. A única forma de quebrar o círculo vicioso do racismo é quebrar a desigualdade no acesso à qualidade escolar e implantar um currículo antirracista.

Ao longo do primeiro século de sua independência, os estados do Sul dos Estados Unidos praticavam escravidão legalmente, enquanto nos estados do Norte a escravidão era ilegal e proibida. Isto provocou um fluxo de escravos fugitivos em direção à liberdade nos estados nortistas. Diversas pessoas formavam redes que auxiliavam as fugas; da mesma forma, outras se dedicavam a sequestrar fugitivos em liberdade para levá-los de volta à escravidão. Em muitos casos, crianças negras eram sequestradas das escolas onde estudavam.

No Brasil, uma forma de sequestro continua retirando crianças da escola, por causa da pobreza da família, precariedade das edificações, obsolescência dos equipamentos, inadequação de métodos, ou por falta de esperança no que estudam. Metade de nossas crianças é retirada da escola antes da conclusão da educação de base. Chama-se isto de evasão, como nos Estados Unidos chamavam de restituição aos donos.

No caso dos Estados Unidos, o sequestro retirava as crianças afrodescendentes, no Brasil não há esta exclusividade racial, mas, quase 133 anos depois da Abolição, a maioria dos sequestrados nas escolas brasileiras são também afrodescendentes. Nossas crianças não são levadas à escravidão, mas caem no mundo da exclusão: desemprego, baixos salários, trabalhos servis. A negação de boa educação aos pobres, maioria afrodescendentes, é a última trincheira do escravismo, e o caldeirão onde o racismo é fermentado.

As leis que punem gestos e falas colaboram para reduzir a prática racista; as cotas nas universidades estatais ou o esforço da Universidade Zumbi dos Palmares estão ajudando a transformar a cor da cara da elite brasileira, mas de forma limitada. Apesar destes esforços, a maioria de nossos afrodescendentes continua abandonando a escola e caindo no analfabetismo pleno ou funcional, não concluem ensino médio com qualidade, sobrevivem excluídos da modernidade. Com isto, mantém-se o círculo vicioso do racismo.

A construção de uma sociedade sem racismo, tolerante, respeitosa e enriquecida com a diversidade, passa pela garantia de escola com a máxima qualidade para todas as crianças, independentemente da renda, da raça e do endereço delas. Isso só é possível se o Brasil dispuser de um Sistema Único Nacional de Educação de Base, portanto federal, que quebre a desigualdade entre os municípios. Graças a uma carreira nacional de professores muito bem remunerados, bem formados e bem dedicados; a padrões equivalentes na qualidade das edificações e dos equipamentos, todos em horário integral.
O racismo será quebrado pela convivência de crianças de todas as raças e credos, em escolas com a mesma qualidade, até o final do ensino médio, e com a adoção de componentes curriculares promotores de uma consciência tolerante, respeitosa da diversidade. A quebra do racismo virá sobretudo da igualdade na qualidade da escola ao longo de toda a educação de base, com conteúdo respeitoso às diversidades.

*Professor emérito da Universidade de Brasília, foi ministro da Educação e governador do Distrito Federal