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E se o meu neto fosse brasileiro?

Fonte: Jornal Folha de S.Paulo: https://www1.folha.uol.com.br/folha-100-anos/2021/07/e-se-o-meu-neto-fosse-brasileiro.shtml

Por ter nascido no Reino Unido, Dylan herdou tíquete na loteria da boa vida, negada a um imenso número de crianças mundo afora

Dylan, meu neto, nasceu em abril, em Londres.

É claro que não há garantias absolutas para a qualidade de vida dele nem de nenhum outro recém-nascido. Mas certamente é um bom começo ter nascido em uma família de classe média em um distrito londrino pacato e seguro, com acesso a bons serviços públicos. É provável que ele possa crescer e ter uma longa e próspera vida até o século 22.

Não foi por escolha, e sim pelo acaso, que o Dylan ganhou um tíquete na loteria da boa vida. Ele a merece, mas não a conquistou, herdou-a. É certo também que não será apenas ele o beneficiado. Também o serão sua família, sua comunidade e o país onde viverá.

Essa herança é negada a um imenso número de crianças mundo afora. Certamente para a maioria das nascidas no Brasil de hoje.

E se fosse o Dylan um brasileiro pobre, nascido na periferia de qualquer grande cidade brasileira?

Talvez sua mãe viesse a criá-lo sozinha —o pai do Dylan poderia estar na prisão por conta da pobreza, do desespero de não poder criar sua família. Enquanto isso, os que muito roubam têm defesa esmerada.

A mãe estaria de luto quando ele nasceu. Teria perdido seu segundo irmão em alguma emboscada da polícia. Afinal, em plena pandemia, a polícia matou, em 2020, mais de 6.500 brasileiros, quase todos homens entre 15 e 29 anos, 80% deles negros. Como o tio do Dylan.

O sustento da casa só seria garantido pela aposentadoria da avó, pois a mãe do Dylan teria perdido o emprego informal tão logo engravidou. E se a avó morre?

Com o pai preso e a mãe desempregada, teriam ido morar com a mesma avó, em uma comunidade sem saneamento básico. A mãe, mesmo com um smartphone na mão, teria os pés no esgoto.

Dylan teria um ensino público medíocre que, há muito, ninguém na comunidade espera que venha a melhorar. Andaria também muito assustada por conta dos cortes da verba do centro de saúde. Logo quando mais precisaria de um SUS fortalecido.

A mãe do Dylan estaria muito preocupada porque o barraco onde vivem fica em uma encosta. E os policiais avisaram que é área de risco que, a qualquer chuva forte, pode vir morro abaixo.

Da precariedade do ensino, moradia, saneamento e serviços de saúde às oportunidades de emprego, a falta de políticas públicas negaria oportunidades ao Dylan brasileiro.

Os descendentes dos antepassados de Dylan, brutalmente capturados na África há mais de três séculos, ainda esperam alcançar a renda média nacional.

Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entre 40 países estudados, o Brasil ocupa a penúltima posição quanto ao número de anos necessários (270) para um jovem pobre vir a assegurar uma renda equivalente à média nacional. É a história que se repete. Três séculos de espera não para ficarem ricos, apenas para atingirem a renda média!

Mas o medo maior da mãe do Dylan seria a adolescência do filho. Há uma disputa ferrenha entre os traficantes de drogas e a milícia na área. Quando entra a polícia, é um Deus nos acuda. O racismo estrutural leva a consequências sempre piores para alguém como ele.

Se ele conseguisse ultrapassar essa etapa difícil da vida de um negro pobre, seria o Dylan mais um jovem que nem trabalha nem estuda, como mais de um terço de jovens em sua vizinhança hoje?

Seria possível para o Dylan cuidar da mãe, cuidar de si mesmo, sem recursos, qualificações e habilidades que o permitam competir no mercado de trabalho?

Apesar de tudo e mesmo sabendo que sua expectativa de vida é menos de dez anos que um Dylan branco e rico, talvez ele conseguisse envelhecer. Não ao ter completado 60 ou 70 anos —muito antes, com pressão alta, diabetes e esperando na longa fila para uma prótese dos joelhos castigados pelo trabalho duro de muitas décadas.

Parafraseando Gonçalves Dias, já que o último domingo (18) foi o Dia Internacional da Poesia: os Dylans daqui não gorjeiam como gorjeiam os de lá.

SEÇÃO DISCUTE QUESTÕES DA LONGEVIDADE

A seção Como Chegar Bem aos 100 é dedicada à longevidade e integra os projetos ligados ao centenário da Folha, celebrado neste ano de 2021. A curadoria da série é do médico gerontólogo Alexandre Kalache, ex-diretor do Programa Global de Envelhecimento e Saúde da OMS (Organização Mundial da Saúde).