Diversidade também é uma estratégia de sobrevivência na periferia

Fonte: Artigo de Veny Santos para o jornal Folha de S.Paulo: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/veny-santos/2021/03/diversidade-tambem-e-uma-estrategia-de-sobrevivencia-na-periferia.shtml

Para continuar, era preciso ter tática, jeito, manha, trama que permitisse chegar ao amanhã. Diversidade, palavra que gera discussões em contextos culturais, políticos e sociais. Hoje, quando evocada, geralmente se refere a grupos cujas características fogem do que é imposto como normalidade e usado de parâmetro para tentar homogeneizar as sociedades.

Diversidade racial, ideológica, de classe, gênero e sexualidade, por exemplo, expressam as variadas –e fundamentais– perspectivas que tecem a realidade subjetiva e coletiva de cada indivíduo, estruturando a chamada malha social.

Estive pensando a respeito do sentido de diversidade direcionado apenas aos aspectos ligados às diferenças entre grupos e culturas; na pluralidade de experiências pessoais e comunitárias; no choque com o retrógrado e na continuidade de tradições.

Faltou-me outro “canto” dentro do conceito e, particularmente, pensar e escrever sobre “cantos” –os lados que muita gente não vê– é o que me interessa. O que coloco aqui é algo pragmático: diversidade também é estratégia de sobrevivência.

Alemão, Café com Leite, Zoio, Magrão, Perna de Pau, Cabeça, Baixinha, puxadinho, cabeleireira-garagem, casa-mercadinho, chinelo-chuteira, trave de tijolo, parede com parede, terreiro, igreja, médico de farmácia, benzedeira. Onde cresci, praticamente tudo e todos eram diferentes nas suas tentativas de viver uma vida comum, não só pelos aspectos físicos –que viravam parte de suas identidades—, mas também pelos elementos básicos de subsistência mesmo em situação de vulnerabilidade.

Um dia o vizinho resolvia suas diferenças no grito, no outro falava baixo ao pedir um pouco de leite. No bairro não tinha lanchonete do palhaço para o pai levar os pivetes? Era no boteco onde ele tomava sua cerveja, via o jogo, pedia uma porção de moela e deixava os filhos entretidos com salgadinho e mesa de bilhar.

Havia mães que trabalhavam limpando a casa de outras mães, assim como também havia as que limpavam a própria, dia após dia, num infinito emprego sem salário, cujo pagamento era ver suas crias crescerem de perto. Ambos os tipos acordavam às cinco da manhã para tentar vaga nas escolas municipais. Sem parquinho, mas com morro, futebol de várzea, rampa de compensado e caixote de feira.

Se as leis da Justiça falhavam, criava-se o proceder. Para sobreviver, era preciso tática, jeito, manha, trama que permitisse chegar ao amanhã. Mais do que reconhecer as diversidades, o importante era não sucumbir às adversidades. Afinal, se os problemas são variados, assim também precisam ser as soluções.

Evidentemente que locais diversificados têm seus conflitos. Preconceitos são mecanismos de extermínio simbólico, cultural e físico da diversidade enquanto artimanha para sobreviver. Perguntemos ao povo preto, LGBT, aos que vivem na faixa da pobreza, como eles resistiram até aqui. A diversidade de respostas desenhará suas táticas.

Eu poderia escrever muitos “na falta de” e, para cada um deles, conseguiria complementar com “criava-se”. Nesses espaços, o diverso se faz por essência e por sobrevivência. É esse “canto” que trago, aqui. Toda vez que olho para ele, vejo o ímpeto criativo se manifestando nas muitas formas de sobreviver em comunidade.

Lembro-me de quando li uma obra que abordava justamente a cultura em meio à pós-modernidade e à globalização —importante ressaltar, pela perspectiva dos povos e práticas na América Latina.

“Diferentes, Desiguais e Desconectados” é um livro de Néstor García Canclini, antropólogo argentino, que apresenta vasta discussão a respeito de multiculturalidade, interculturalidade, comunicação e diversidade dos povos latino-americanos, refletidas em conflitos, cooperação e “empréstimos” –em resistência e denúncia quanto às desigualdades fundadas na economia e política.

Uma das críticas que o autor faz, e que eu quero citar aqui, é contra a universalização que sufocava a produção de conhecimentos a partir das culturas diversas, conflitantes e em permanente construção de alternativas.

Se Canclini tivesse conhecido meu bairro, talvez teria batizado seu livro de “Diferentes, Desiguais, Desconectados e Sobreviventes”.

Veny Santos

Escritor, jornalista e sociólogo, é autor de “Batida do Caos” e “Nós na Garganta”.