Desempenho de cotistas é igual ao dos demais alunos na Unesp

Fonte: Unesp: https://www2.unesp.br/portal#!/noticia/36309/desempenho-de-cotistas-e-igual-ao-dos-demais-alunos-na-unesp

Em 2014, a Unesp iniciou uma política de inclusão social por meio de cotas pioneira entre as universidades públicas paulistas. A proposta reserva 50% das vagas da graduação de cada curso e turno para alunos que cursaram integralmente o ensino médio em escolas públicas, e deste montante, 35% das vagas reservadas para pretos, pardos e indígenas (PPI).

Em 2020, um estudo conduzido por quatro professores da Unesp coletou dados de mais de 30 mil alunos (cotistas e não cotistas) entre os anos de 2014 e 2017, para avaliar se houve alguma diferença de desempenho acadêmico ou de frequência entre alunos cotistas e não cotistas. A conclusão principal é que não há diferenças relevantes entre os dois grupos. A análise está em linha com outros levantamentos realizados sobre o tema, seja em âmbito nacional, ou particularmente nas instituições.

Para os autores do trabalho, os professores Eduardo Galhardo, Mário Sérgio Vasconcelos, Fernando Frei e Edgar Bendahan Rodrigues (todos da Faculdade de Ciências e Letras do câmpus de Assis), tendo em vista esta nova política inclusiva do ensino superior paulista, é fundamental a execução de estudos a respeito deste novo perfil discente, sobretudo para que os projetos de inclusão possam ser avaliados e aprimorados.

O resultado do estudo feito pelos docentes da Unesp vai de encontro a um argumento recorrente entre os críticos da adoção de cotas no ensino superior. Nestes apontamentos, a adoção de uma política de cotas selecionaria alunos não preparados para a universidadedesconsideraria seu processo de seleção meritocrático e poderia trazer como consequência a redução da qualidade da instituição. Os dados levantados no contexto da Unesp, contudo, desmentem os argumentos.

A pesquisa
Cabe ressaltar que o estudo não foi realizado com uma amostra, mas sim com a população total de alunos ingressantes, a partir de dados obtidos no Sistema de Graduação da Unesp (o Sisgrad). No trabalho, os autores analisaram as seguintes variáveis: Coeficiente de Rendimento (média das notas finais das disciplinas cursadas – mínima zero e máxima dez); Média Ponderada (média das notas finais das disciplinas cursadas considerando a carga horária da disciplina); Índice de Desempenho (% de disciplinas em que foi aprovado entre as que estava matriculado); Frequência Média (% de comparecimento às atividades das disciplinas no referido ano); Coeficiente de Rendimento em cada ano cursado; e, Média Ponderada em cada ano cursado.

A tabela abaixo mostra as médias do desempenho acadêmico de cotistas e não cotistas dos estudantes da Unesp, por ano, no período de 2014 a 2017, sendo SU (ingressantes pelo Sistema Universal, os não-cotistas), EP (ingressantes pelas cotas de alunos de escola pública) e PPI (ingressantes pelas cotas para pretos, pardos e indígenas. Do ponto de vista estatístico, os valores não representam diferença de desempenho entre os três grupos.

O artigo analisa ainda as médias de frequência em sala de aula, que se mostrou semelhante nos três grupos no decorrer dos anos, tanto para a categoria de cursos de alta demanda (aqueles com concorrência maior que 25 candidatos por vaga), quanto para cursos de baixa demanda (com a concorrência inferior a três candidatos por vaga). Esta última com valores menores, mas todos acima de 74% de frequência.

Inclusão na Unesp
Adotado em 2014, o Projeto de Inclusão previa um prazo de cinco anos para a universidade atingir a meta de inclusão de estudantes de escola pública em 50% das vagas, sendo 15% em 2014, 25% em 2015, 35% em 2016, 45% em 2017 e 50% em 2018.

Desde 2018, a Unesp vem atingindo o objetivo estabelecido no projeto. Os dois gráficos abaixo indicam a trajetória do número de alunos entre os cursos de alta demanda (como Medicina, Direito e Arquitetura ou Urbanismo) e de baixa demanda social (como Arquivologia, Matemática-Licenciatura ou Biblioteconomia).

É possível notar nas figuras acima que, para os cursos de alta demanda social, os estudantes vindos de escolas públicas e pertencentes ao grupo de pretos, pardos e indígenas quase triplicaram em três anos. Já nos cursos de baixa demanda social, os ingressantes provenientes desses grupos quase não variaram – segundo os autores, estes cursos historicamente já eram mais frequentados por alunos de escola pública e por PPIs.

Iniciativa pioneira entre as universidades públicas paulista, a adoção das cotas não é a única ação afirmativa implementada pela Unesp. A Universidade investe ainda em cursinhos pré-vestibulares, bolsas, auxílios permanência, restaurantes universitários, moradias estudantis, além de promover isenções de taxas no vestibular.

Ações afirmativas podem ser entendidas como medidas adotadas com o objetivo de eliminar desigualdades historicamente acumuladas e garantir a igualdade de oportunidades. As consequências de processos históricos não são corrigidas no curto prazo. Políticas públicas precisam de tempo e análise para  aprimoramento, e este estudo colabora para desmistificar a ideia preconcebida de que os estudantes que ingressam pelo sistema de cotas necessariamente obtêm resultados inferiores àqueles que ingressaram pelo Sistema Universal.