Reprodução Instagram Deise Nunes

Deise Nunes fala sobre o impacto do racismo em sua vida

Deise Nunes, a primeira Miss Brasil Negra, compartilhou com o Movimento AR um pouco sobre o impacto da intolerância racial em sua vida, o momento em que pensou em abandonar a carreira e a volta por cima. Conheça também o que essa linda mulher deseja para o futuro. 

1.Como foi para você ser coroada a primeira mulher Negra como Miss Brasil?

DN – Primeiro foi um susto e um marco ter podido mostrar ao Brasil que nossa beleza não é uma “beleza exótica” e sim uma beleza. Cada um tem a sua beleza. Foi uma honra representar a minha gente, o meu povo, o meu País num concurso internacional. Acredito que a minha vitória, em 1986, foi uma abertura de portas para muitas meninas que acalentavam esse sonho de se tornar miss ou participar de um concurso de beleza. 

2. Imaginamos que tenha enfrentado inúmeras situações constrangedoras até receber a faixa de mulher mais linda do Brasil em 1986. Você pode compartilhar um pouco desses desafios com as jovens que estão lendo agora?

DN – Eu acho que todos nós,  negros, sofremos  racismo, pelo menos em algum momento da vida. Em 1984 quando participei de um concurso chamado Miss das Piscinas, em Porto Alegre, sofri discriminação não por integrantes ou por organizadores, mas por alguns jurados que não queriam que eu vencesse apenas por ser negra. Mas eu venci. Na mesma época, na seleção para um trabalho disseram que o cliente não queria um negro no trabalho. Me senti muito mal, cheguei a falar para minha Mãe que ia parar com a carreira, mas, Graças a Deus, ela não me ouviu e fez minha inscrição no Miss Rio Grande do Sul. Venci essa etapa e depois o Miss Brasil, aos 18 anos. Na sequência, no Miss Sul damérica fiquei em terceiro lugar e no Miss Universo fiquei em sexto lugar. Me orgulho de ter representado muito bem o meu Estado e, principalmente, meu País.

3. Qual o maior impacto do racismo e da discriminação em sua vida?

DN – Em minha opinião o impacto, por incrível que pareça, foi positivo porque me fez olhar para frente e não desistir de lutar contra a discriminação racial e preconceito. Sempre procurei me colocar como uma Mulher Negra que busca seus direitos e exige respeito. Luto diariamente contra a discriminação, mesmo que não seja diretamente contra a minha pessoa.    Sabemos que é um trabalho árduo que temos que educar as pessoas para que o racismo não aconteça mais.  A educação é a grande salvação de tudo, enquanto não tivermos a nossa verdadeira história contada nos livros didáticos, as coisas vão demorar a mudar.

4. Porque você aderiu ao Movimento AR?

DN – Aderi por saber que o Movimento AR é um projeto sério, responsável e que vai lutar pela mudança de vida dos negros.  Desejo que, de fato que a gente mude algumas coisas, principalmente nas abordagens policiais. Espero que o Movimento AR consiga dar oportunidade e respeito por todos nós. De fato acredito que o movimento possa fazer com que os negros sejam inseridos no mercado de trabalho e que sejam respeitados em qualquer lugar que estejam.  Hoje temos uma vantagem, o jovem atual tem muito orgulho de sua negritude, tem muitas referências e oportunidade de se colocar e enfrentar o preconceito.

5. Hoje, sendo uma mulher bem sucedida o racismo ainda está presente no seu dia a dia. Sente alguma discriminação? 

DN – A partir do momento em que fui eleita Miss Brasil não senti mais nenhuma forma de discriminação racial, diretamente, contra mim. 

6. Qual foi o seu sentimento ao se deparar com acontecimentos como  a morte de George Floyd, crianças mortas no Brasil, agressão a comerciante em SP com ações de enforcamento , entre tantas outras que não chegam ao nosso conhecimento mas sabemos que existe? 

DN – O sentimento de impotência diante dessa situação. Fui invadida por um sentimento que não gosto, senti muita  raiva. Somos diferentes apenas na cor da pele, somos seres humanos como eles. A falta de respeito com o ser humano que as pessoas têm é o que mais choca.  As pessoas acham que podem fazer tudo, falar tudo, escrever tudo, mas precisamos ter a consciência que ao lado alguém pode se ferir.  Às vezes surge a sensação muito ruim como se foi o que foi feito não valeu a pena, mas valeu sim. A gente não pode deixar essa bandeira cair. Temos que seguir em frente.

7. Estamos num momento único no Mundo, onde a empatia parece ter reinado em pequenas e grandes ações das pessoas em prol da solidariedade. Você acredita que esta é uma transformação e todos sairemos melhores desse período de Pandemia ou não? 

DN – No primeiro momento achei que todo mundo sairia melhor, que todos repensariam suas atitudes. Hoje, acredito que as pessoas boas deverão sair ainda mais aprimoradas. Mas, por mais triste que pareça, aqueles que não são tão bons, não sairão melhores.  

8. Qual o mundo que deseja para seus filhos e netos?

DN – Um mundo justo, de oportunidades, de respeito, sem racismo, de solidariedade, de amizade verdadeira, um mundo de Amor, pois o amor transforma as pessoas. Gostaria que as pessoas olhassem para os outros e estendessem as mãos e não colocassem o pé no pescoço. Almejo que, no futuro as pessoas não façam as outras de degrau para subir na vida e sim que deem as mãos e ajudem o outro a subir também. 

9. Acrescente algo que queira falar sobre essa luta e o Movimento AR

DN – Não podemos desistir Jamais. Conheço o reitor José Vicente há muitos anos, sei o quanto ele luta no combate à intolerância racial. 15 anos atrás, quando ele falou sobre o projeto da  Universidade Zumbi dos Palmares achei que não seria viável e hoje temos essa universidade como referência no Brasil. Desejo que o Movimento AR consiga caminhar a passos largos. Que as coisas realmente aconteçam e sejam colocadas na prática, precisamos de atitude de verdade.

Muito axé para todos nós.