Cotas Sim!

Fonte: Artigo da embaixadora do Movimento AR, Guiomar de Grammont, para o jornal O Tempo (MG): https://www.otempo.com.br/opiniao/artigos/subscription-required-7.5927739?aId=1.2483738

Maria, negra, 42 anos, filha de uma faxineira, criou seus três filhos com muita dificuldade, trabalhando como empregada doméstica, com o marido desempregado. Hoje, a situação começa a se inverter: são os filhos que começaram a ajudá-la. A primeira, formada em fisioterapia, o segundo, em contabilidade, e o menor, conclui o ensino médio pensando em se tornar advogado, para poder « lutar pelos direitos humanos nesse país ». O mesmo aconteceu com Francisco, caminhoneiro negro, de 54 anos, que chorou, copiosamente, de emoção, na formatura da filha em medicina. Filho de um lavrador pobre, ele mal contém o orgulho e admiração ao vê-la dedicada ao trabalho no posto de saúde da comunidade onde vivem.  Essas conquistas só se tornaram possíveis graças às cotas nas universidades para negros, um bem do qual toda a sociedade deveria se orgulhar, pois reduziu consideravelmente a desigualdade em nosso país. Antes, a realidade era outra, vivíamos em um círculo de opressão, em que um negro dificilmente conseguia escapar da pobreza. A sociedade reproduzia, indefinidamente, um triste padrão, em que a filha de uma faxineira só podia se tornar uma empregada doméstica, o filho de um caminhoneiro só podia se tornar caminhoneiro. 

Muitos, apesar de todos os avanços que tivemos no Brasil, nos últimos anos, ainda se posicionam contra as cotas, com eufemismos que ocultam o mais abjeto racismo, dizendo que « não há oportunidades para todos », que « o desemprego vai aumentar ». Estes se esquecem que a ascensão ao mercado de trabalho por parte dos brasileiros mais pobres, vivenciada nos últimos anos, fomentou a economia, ampliou o acesso aos bens de consumo e, consequentemente, dinamizou como nunca o mercado brasileiro, sem falar na imagem positiva do Brasil no exterior, o que atraiu consideráveis investimentos.

Agora, estamos vendo todas essas conquistas rolarem ladeira abaixo. Em agosto de 2022 e em junho de 2024, as leis 12.711/2012 e 12.990/2014, completarão o prazo previsto, de 10 anos,  para implementação das cotas para negros nas universidades públicas e nos concursos públicos da administração federal. Ora, todos sabem que esse prazo inicial foi insuficiente para modificar definitivamente o panorama de desigualdade sistêmica na sociedade brasileira. São necessários pelo menos 50 anos de oportunidades para os negros, para que esse quadro seja revertido de forma positiva em todo o país.

Nesse momento, as cotas são o prinicipal instrumento de redução das desigualdades, pois todos sabem que as crianças e jovens educados em ambientes sem recursos e equipamentos, tendo, muitas vezes que trabalhar e estudar, muitas vezes não alcançam os mesmos resultados de outros que tiveram as melhores condições de ensino.

As leis que definiram as cotas significaram a mais importante ação, em termos de política pública, para o combate ao racismo e à desigualdade que caracterizam os países que viveram a escravidão colonial, como o Brasil.  É preciso que nos posicionemos todos a favor da manutenção das cotas, pois isso é imprescindível para a consolidação da nossa democracia, para a constituição do Brasil como um país livre, de ideais republicanos e éticos, capaz de retomar a senda de desenvolvimento abortada com os revezes políticos que acabamos de atravessar, os  quais trouxeram tantas consequências negativas para os brasileiros.

A política de cotas e todas as medidas afirmativas públicas e privadas de combate ao racismo são fundamentais para a construção de uma economia forte, com desenvolvimento tecnológico e instituições democráticas sólidas, ou seja, para conquistar, enfim, o destino que um dia sonhamos para o Brasil. 

Guiomar de Grammont – embaixadora do Movimento AR e do Cotas Sim