Combater desinformação e promover diversidade são desafios do jornalismo, dizem diretores de Redação

Fonte: Jornal Folha de S.Paulo: https://www1.folha.uol.com.br/folha-100-anos/2021/02/combater-desinformacao-e-promover-diversidade-sao-desafios-do-jornalismo-dizem-diretores-de-redacao.shtml

Debate virtual reuniu cinco representantes de veículos de comunicação do Brasil

Promover a diversidade, combater a desinformação e conquistar leitores estão entre os maiores desafios da imprensa hoje, segundo representantes de veículos de comunicação do Brasil.

Esses e outros temas pautaram debate conduzido por Sérgio Dávila, diretor de Redação da Folha, em evento que integra as comemorações do centenário do jornal. Participaram Rene Silva, da Voz das Comunidades, Paula Miraglia, do Nexo, João Caminoto, do Grupo Estado, e Alan Gripp, de O Globo.

Durante a conversa virtual, ocorrida na manhã de 4 de fevereiro, os discursos confluíram para a importância da seleção e da curadoria de informações realizadas pela mídia, sobretudo no cenário da pandemia.

Também foi consenso que é necessário trabalhar pela eliminação dos abismos de raça e de gênero existentes nas corporações. Todos defenderam medidas para aumentar a representatividade nos conteúdos e quadros de funcionários, mas reconheceram que tais ações ainda são insuficientes.

Dávila iniciou o debate perguntando a Rene Silva, fundador e editor-chefe da Voz das Comunidades, quais as dificuldades que o veículo enfrentou em seus 16 anos de existência. Segundo Silva, o jornal comunitário, do qual é criador, passou por vários processos de reinvenção para atingir o público de forma mais eficiente.

“Hoje temos a versão impressa do jornal, a versão digital, um aplicativo, grupos de WhatsApp… Temos várias maneiras de nos comunicar diariamente e diretamente com a população, com os moradores de favelas do Rio de Janeiro”, disse.

A Voz das Comunidades surgiu em 2005 no Complexo do Alemão. Silva contou que o objetivo do projeto era informar os moradores sem caracterizá-los da forma como é feito na imprensa tradicional.

“Nós fomos e somos até hoje retratados de maneira preconceituosa. A gente vê, no olhar de fora da comunidade, como a favela é estereotipada. A mídia vê ainda hoje algo como ‘nessas favelas só tem bandido, só tem tráfico, é bandidagem, é o quartel general do tráfico, é bunker de bandidos.’”

​Paula Miraglia, cofundadora e diretora-geral do Nexo, afirmou que a indústria da notícia está pressionada e disse que sua empresa, surgida em 2015, é viável porque entende muito claramente seu papel.

“Como somos um jornal que paga as contas sobretudo com assinaturas, nosso valor está em convencer as pessoas de que nosso conteúdo vale a ponto de elas assinarem o Nexo. Isso passa por ser único, por trazer formatos inovadores, por fazer um papel que outros players não estejam fazendo, como organizar o noticiário e dar contexto.”

​“O maior desafio [da imprensa tradicional] é manter o legado —que é a forma de fazer o jornalismo relevante, impactante, sério— e ao mesmo tempo se tornar palatável, atraente, para as novas gerações”, afirmou João Caminoto, diretor de jornalismo do Grupo Estado.

Alan Gripp, diretor de Redação de O Globo, concordou. “Todo dia, a toda hora, todo mundo é bombardeado por um oceano de informações vindas de origens completamente diferentes e você precisa permanecer relevante e conquistar a atenção do público em um ambiente tão difuso e barulhento quanto esse.”

Para ele, isso implica buscar a inovação em cada conteúdo. Como exemplo, citou um quiz feito pelo jornal que mostrava ao leitor qual o lugar dele na fila da vacina da Covid-19.

“Isso nada mais é do que algo que os jornais sempre fizeram, aquele serviço básico de mostrar as datas. Mas fizemos em um formato diferente e chegamos a um público ao qual não chegaríamos com o serviço tradicional.”

O combate ao racismo estrutural foi considerado tema prioritário pelos debatedores. Questionado por Dávila, Rene Silva explicou como os veículos podem atuar para reduzir esse problema em suas coberturas.

“O desafio para a grande mídia é pensar, analisar, antes de qualquer título, capa, qualquer destaque, qualquer reportagem e como isso vai impactar diretamente na vida de milhares de pessoas que moram dentro desses territórios, que são atingidos diretamente nessa situação.”

Para Miraglia, é preciso haver ações intencionais para combater essa desigualdade. Ela também acredita que a representatividade no conteúdo produzido pelo jornal é fundamental, seja em se tratando de fontes, seja em contratações.

“Precisamos entender que, se queremos contar histórias que realmente importam, histórias que falem do nosso país, precisamos ter pessoas que representam o nosso país em nossas Redações. Obviamente é uma questão de reparação histórica, mas não só isso. É uma questão para a prática do bom jornalismo”, afirmou.

Para tentar corrigir esse desequilíbrio, Miraglia contou que o Nexo prepara um programa que contemplará dez estudantes negros com bolsas e treinamento em jornalismo durante o período de um ano.

Outro ponto que requer atenção, segundo ela, é a diversidade de gênero nos meios de comunicação, sobretudo em cargos de liderança, e a forma como isso impacta as mulheres que trabalham nessas empresas.

“Principalmente da média gerência para cima, nós somos quase totalmente brancos e com preponderância masculina. Nossa indústria está até atrasada em relação a outras, que tomaram atitudes muito mais proativas em relação a isso”, lamentou Caminoto.

Para Gripp, “o primeiro passo é as Redações reconhecerem que elas reproduzem esse racismo estrutural em seus ambientes, em seus conteúdos e suas equipes. E reconhecer que, embora todos tenham adotado mecanismos para tentar vencer essas diferenças, ainda é muito pouco”.

Os aprendizados da prática jornalística em tempos de pandemia e o que ficará deste momento histórico para a indústria foram outras reflexões propostas por Dávila. O distanciamento social necessário para conter a Covid-19, na visão de Gripp, foi prejudicial à troca de ideias inerente ao jornalismo. Porém, ele também viu um reforço na importância do papel da imprensa nesse contexto.

“Todo mundo experimentou, durante o pico da pandemia, audiências de altíssima escala, o que mostra que, em um momento de grande dificuldade, a sociedade, de uma forma geral, correu para o ponto seguro da credibilidade de informação”, disse ele.

Silva, por sua vez, disse que nas comunidades foi possível ver na prática a gravidade da proliferação de notícias falsas, o que levou o Voz das Comunidades a repensar a forma de se relacionar com uma população que tradicionalmente é privada de informações.

Algumas das saídas que encontraram foram a produção de boletins diários com checagem de fatos, a comunicação via WhatsApp e o lançamento de um aplicativo, entre outras medidas.

“Uma das formas de se comunicar com a comunidade foi por meio de carros de som e também colocando faixas. No primeiro mês da pandemia, espalhamos mais de cem faixas alertando sobre os perigos do coronavírus”, acrescentou.

Também foi abordado pelos debatedores a dificuldade de trabalhar quando há autoridades e grupos políticos adotando posturas de negação da ciência e hostis ao trabalho jornalístico.

“Isso tornou muito mais intensa a missão de reportar. Não basta apenas dar a notícia, mas precisamos esclarecer uma série de informações falsas, distorcidas, e isso trouxe uma tensão maior ao nosso trabalho”, afirmou Caminoto.

Para Miraglia, o movimento negacionista e de desinformação impõe a necessidade de criar um filtro para que a pluralidade de opiniões não se transforme em um desserviço.

“Não se pode cair em uma armadilha de um ‘outro lado’ simplesmente pelo ‘outro lado’, um ‘dois ladismos’ que não presta serviço a ninguém. O Nexo tem um equilíbrio no centro de seu modelo editorial que passa pelo compromisso de trazer diferentes perspectivas que estejam sustentadas pelas evidências, pela verdade, pelos fatos”, defendeu ela.

Já Silva alertou para como os discursos do presidente Jair Bolsonaro afetaram diretamente o comportamento das pessoas, causando desrespeito ao isolamento social e às recomendações sanitárias.

“Independentemente de quem está na figura de Presidente da República, é a autoridade máxima do país. A pessoa, tendo votado ou não nele, vai entender que aquilo é o certo.”

Combater desinformação e promover diversidade são desafios do jornalismo, dizem diretores de Redação

Debate virtual reuniu cinco representantes de veículos de comunicação do Brasil

Promover a diversidade, combater a desinformação e conquistar leitores estão entre os maiores desafios da imprensa hoje, segundo representantes de veículos de comunicação do Brasil.

Esses e outros temas pautaram debate conduzido por Sérgio Dávila, diretor de Redação da Folha, em evento que integra as comemorações do centenário do jornal. Participaram Rene Silva, da Voz das Comunidades, Paula Miraglia, do Nexo, João Caminoto, do Grupo Estado, e Alan Gripp, de O Globo.

Durante a conversa virtual, ocorrida na manhã de 4 de fevereiro, os discursos confluíram para a importância da seleção e da curadoria de informações realizadas pela mídia, sobretudo no cenário da pandemia.

Também foi consenso que é necessário trabalhar pela eliminação dos abismos de raça e de gênero existentes nas corporações. Todos defenderam medidas para aumentar a representatividade nos conteúdos e quadros de funcionários, mas reconheceram que tais ações ainda são insuficientes.

Dávila iniciou o debate perguntando a Rene Silva, fundador e editor-chefe da Voz das Comunidades, quais as dificuldades que o veículo enfrentou em seus 16 anos de existência. Segundo Silva, o jornal comunitário, do qual é criador, passou por vários processos de reinvenção para atingir o público de forma mais eficiente.

“Hoje temos a versão impressa do jornal, a versão digital, um aplicativo, grupos de WhatsApp… Temos várias maneiras de nos comunicar diariamente e diretamente com a população, com os moradores de favelas do Rio de Janeiro”, disse.

A Voz das Comunidades surgiu em 2005 no Complexo do Alemão. Silva contou que o objetivo do projeto era informar os moradores sem caracterizá-los da forma como é feito na imprensa tradicional.

“Nós fomos e somos até hoje retratados de maneira preconceituosa. A gente vê, no olhar de fora da comunidade, como a favela é estereotipada. A mídia vê ainda hoje algo como ‘nessas favelas só tem bandido, só tem tráfico, é bandidagem, é o quartel general do tráfico, é bunker de bandidos.’”

​Paula Miraglia, cofundadora e diretora-geral do Nexo, afirmou que a indústria da notícia está pressionada e disse que sua empresa, surgida em 2015, é viável porque entende muito claramente seu papel.

“Como somos um jornal que paga as contas sobretudo com assinaturas, nosso valor está em convencer as pessoas de que nosso conteúdo vale a ponto de elas assinarem o Nexo. Isso passa por ser único, por trazer formatos inovadores, por fazer um papel que outros players não estejam fazendo, como organizar o noticiário e dar contexto.”

​“O maior desafio [da imprensa tradicional] é manter o legado —que é a forma de fazer o jornalismo relevante, impactante, sério— e ao mesmo tempo se tornar palatável, atraente, para as novas gerações”, afirmou João Caminoto, diretor de jornalismo do Grupo Estado.

Alan Gripp, diretor de Redação de O Globo, concordou. “Todo dia, a toda hora, todo mundo é bombardeado por um oceano de informações vindas de origens completamente diferentes e você precisa permanecer relevante e conquistar a atenção do público em um ambiente tão difuso e barulhento quanto esse.”

Para ele, isso implica buscar a inovação em cada conteúdo. Como exemplo, citou um quiz feito pelo jornal que mostrava ao leitor qual o lugar dele na fila da vacina da Covid-19.

“Isso nada mais é do que algo que os jornais sempre fizeram, aquele serviço básico de mostrar as datas. Mas fizemos em um formato diferente e chegamos a um público ao qual não chegaríamos com o serviço tradicional.”

O combate ao racismo estrutural foi considerado tema prioritário pelos debatedores. Questionado por Dávila, Rene Silva explicou como os veículos podem atuar para reduzir esse problema em suas coberturas.

“O desafio para a grande mídia é pensar, analisar, antes de qualquer título, capa, qualquer destaque, qualquer reportagem e como isso vai impactar diretamente na vida de milhares de pessoas que moram dentro desses territórios, que são atingidos diretamente nessa situação.”

Para Miraglia, é preciso haver ações intencionais para combater essa desigualdade. Ela também acredita que a representatividade no conteúdo produzido pelo jornal é fundamental, seja em se tratando de fontes, seja em contratações.

“Precisamos entender que, se queremos contar histórias que realmente importam, histórias que falem do nosso país, precisamos ter pessoas que representam o nosso país em nossas Redações. Obviamente é uma questão de reparação histórica, mas não só isso. É uma questão para a prática do bom jornalismo”, afirmou.

Para tentar corrigir esse desequilíbrio, Miraglia contou que o Nexo prepara um programa que contemplará dez estudantes negros com bolsas e treinamento em jornalismo durante o período de um ano.

Outro ponto que requer atenção, segundo ela, é a diversidade de gênero nos meios de comunicação, sobretudo em cargos de liderança, e a forma como isso impacta as mulheres que trabalham nessas empresas.

“Principalmente da média gerência para cima, nós somos quase totalmente brancos e com preponderância masculina. Nossa indústria está até atrasada em relação a outras, que tomaram atitudes muito mais proativas em relação a isso”, lamentou Caminoto.

Para Gripp, “o primeiro passo é as Redações reconhecerem que elas reproduzem esse racismo estrutural em seus ambientes, em seus conteúdos e suas equipes. E reconhecer que, embora todos tenham adotado mecanismos para tentar vencer essas diferenças, ainda é muito pouco”.

Os aprendizados da prática jornalística em tempos de pandemia e o que ficará deste momento histórico para a indústria foram outras reflexões propostas por Dávila. O distanciamento social necessário para conter a Covid-19, na visão de Gripp, foi prejudicial à troca de ideias inerente ao jornalismo. Porém, ele também viu um reforço na importância do papel da imprensa nesse contexto.

“Todo mundo experimentou, durante o pico da pandemia, audiências de altíssima escala, o que mostra que, em um momento de grande dificuldade, a sociedade, de uma forma geral, correu para o ponto seguro da credibilidade de informação”, disse ele.

Silva, por sua vez, disse que nas comunidades foi possível ver na prática a gravidade da proliferação de notícias falsas, o que levou o Voz das Comunidades a repensar a forma de se relacionar com uma população que tradicionalmente é privada de informações.

Algumas das saídas que encontraram foram a produção de boletins diários com checagem de fatos, a comunicação via WhatsApp e o lançamento de um aplicativo, entre outras medidas.

“Uma das formas de se comunicar com a comunidade foi por meio de carros de som e também colocando faixas. No primeiro mês da pandemia, espalhamos mais de cem faixas alertando sobre os perigos do coronavírus”, acrescentou.

Também foi abordado pelos debatedores a dificuldade de trabalhar quando há autoridades e grupos políticos adotando posturas de negação da ciência e hostis ao trabalho jornalístico.

“Isso tornou muito mais intensa a missão de reportar. Não basta apenas dar a notícia, mas precisamos esclarecer uma série de informações falsas, distorcidas, e isso trouxe uma tensão maior ao nosso trabalho”, afirmou Caminoto.

Para Miraglia, o movimento negacionista e de desinformação impõe a necessidade de criar um filtro para que a pluralidade de opiniões não se transforme em um desserviço.

“Não se pode cair em uma armadilha de um ‘outro lado’ simplesmente pelo ‘outro lado’, um ‘dois ladismos’ que não presta serviço a ninguém. O Nexo tem um equilíbrio no centro de seu modelo editorial que passa pelo compromisso de trazer diferentes perspectivas que estejam sustentadas pelas evidências, pela verdade, pelos fatos”, defendeu ela.

Já Silva alertou para como os discursos do presidente Jair Bolsonaro afetaram diretamente o comportamento das pessoas, causando desrespeito ao isolamento social e às recomendações sanitárias.

“Independentemente de quem está na figura de Presidente da República, é a autoridade máxima do país. A pessoa, tendo votado ou não nele, vai entender que aquilo é o certo.”