Código ‘Zara Zerou’ expõe racismo institucional para segregar corpos negros

Fonte: UOL

A afirmação feita pela Polícia Civil do Ceará de que a loja Zara criou um código de alerta para entrada de pessoas negras ou com “roupas simples” causou zero surpresa para quem é preto e ainda insiste em frequentar estabelecimentos do tipo.

Todos nós, minimamente atentos, temos inúmeros relatos de experiências negativas em lojas de marcas, que vão do descaso com a nossa presença, má vontade no atendimento, olhares de desconfiança e acompanhamento intimidador por parte de seguranças.

A investigação policial serve para confirmar que essas sensações incômodas não são fruto da imaginação, autossabotagem de pessoas negras ou “mimimi”, como insistem os negacionistas do racismo no Brasil.

Também aponta que, para além das denúncias de atos individuais de preconceito, é preciso responsabilizar instituições que promovem ou não combatem o racismo em seus ambientes corporativos.

O caso envolvendo a loja Zara não é isolado. É exemplar de estruturas organizadas e planejadas para segregar. É o racismo institucionalizado, que conta com o empenho de gerentes e líderes para que se torne uma cultura organizacional.

Para que todos os funcionários do estabelecimento tenham o conhecimento dos corpos que devem ser destratados.

Há uma eficiência nesta conduta institucional para que todos se comportem dentro dos códigos racistas exigidos, sem muitos questionamentos, e ainda causando a dúvida nas vítimas:

“Será que eu não estou bem vestida?”. “Será que eu fiz algum movimento brusco?”. “Acho que eu não fiz a pergunta correta”. “Pobre funcionário, não deve ter tido um dia bom de trabalho”. “Deve ser coisa da minha cabeça”.

Boicote tem que contar com apoio de brancos antirracistas

Não dá para achar que isso se resolve simplesmente não comprando nessas lojas.

O boicote, se contasse com a solidariedade e consciência de consumidores brancos antirracistas, poderia até pesar nos caixas e servir a algum ensinamento. Mas é apenas parte de um problema maior reproduzido em diversas estruturas sociais.

Há códigos semelhantes, invisíveis ou explícitos, em recrutadores de emprego, em serviços públicos mais diversos, no atendimento de saúde e nas políticas de segurança.

Basta observar os desastrosos desfechos em boa parte das abordagens policiais que envolvem pessoas negras. Quantos casos de violência de seguranças de estabelecimentos privados, que ocasionaram mortes, como a de João Alberto no Carrefour de Porto Alegre.

Não se trata apenas do desejo de consumo de produtos caros reservados a uma elite. Os códigos de segregação estruturam o acesso a direitos fundamentais, como à saúde e à própria vida.

Capitalismo racista

“No Brasil, antes de ser capitalista, o empresário é racista.”
Vovô do Ilê Aiyê

Voltando a pensar no boicote, retorno a uma fala do presidente do bloco afro Ilê Aiyê, Antônio Carlos dos Santos, o Vovô. Reclamando da falta de patrocínio às entidades negras que desfilam no Carnaval de Salvador, inclusive das marcas de cervejas muito consumidas pelos foliões negros desses blocos, Vovô afirmou: “No Brasil, antes de ser capitalista, o empresário é racista”.

Esse pensamento ajuda a entender as motivações de lojas como a Zara a não considerarem a possibilidade de consumo por pessoas negras. Não importa se possuem dinheiro ou interesse na compra. O ódio racial fala primeiro.

Desprezam os ensinamentos sobre a diversidade como um valor agregado às marcas, os discursos sobre o capitalismo de propósito ou mesmo as pesquisas que revelam a inclusão pelo consumo vivenciada pelo Brasil em anos anteriores.

Se nós, negros, deixarmos de comprar nesses estabelecimento, além de punir um capitalista, estaremos fazendo a alegria de um racista.