Candomblé só aparecia nas páginas policiais do jornal, lembra babalorixá

Fonte: Jornal Folha de S.Paulo: https://www1.folha.uol.com.br/folha-100-anos/2021/02/candomble-so-aparecia-nas-paginas-policiais-do-jornal-lembra-babalorixa.shtml

Para Pai Rodney, imprensa melhorou, mas ainda desliza ao abordar religiões de matriz africana

Como parte dos projetos especiais dos 100 anos da Folha, o jornal convidou 13 integrantes de grupos sub-representados no jornalismo profissional praticado no Brasil. Eles expõem episódios de preconceito e desinformação, além de problemas na relação com jornalistas e na forma como a imprensa noticia —ou não noticia— questões que os afetam direta ou indiretamente.

Batizada de “E Eu? – O Jornalismo Precisa me Ouvir”, a série é formada por vídeos e depoimentos em forma de texto.

Babalorixá e doutor em antropologia pela PUC-SP, Pai Rodney William, 46 anos, fala sobre a representação dos praticantes de religiões de matriz africana na imprensa. Pai Rodney é autor dos livros “Apropriação Cultural”, “A Bênção Aos Mais Velhos” e “Palavras de Axé: Fé, Esperança e Coragem”. Leia entrevista ou assista ao vídeo.

Sempre fui muito combativo. Para mim, candomblé sempre foi luta —pode ser governo progressista, conservador, pode ser ditadura militar, ditadura Vargas. O candomblé sempre foi perseguido. A gente teve um respiro, claro. Os governos Lula e Dilma deram um fôlego e uma esperança, que obviamente foram totalmente extirpados com o governo Bolsonaro.

Não gosto de definir candomblé como uma religião. Não que o conceito de religião esteja ultrapassado, mas ele não dá conta do que é o candomblé. É uma forma que eu tenho de ver e viver o mundo, de explicar tudo o que acontece. Ele é a minha vida.

Isso também se expressa no modo de vida que ocupo, o de babalorixá, que é um pai dentro de uma comunidade. Significa não só que sou uma liderança, mas que tenho um papel fundamental na vida de algumas pessoas.

O candomblé é uma forma que eu tenho de ver e viver o mundo, de explicar o que acontece. É a minha vida

Pai Rodney William

Babalorixá

Um dos legados do candomblé é reproduzir as famílias africanas que foram esfaceladas com a escravidão. Ela é muito confundida com outras religiões de matrizes africanas —batuque, quimbanda, umbanda, xangô e outras que ficaram conhecidas com a alcunha de macumba. Então sou macumbeiro, e com muito orgulho. Ser macumbeiro significa assumir uma identidade a partir da qual eu luto para que todos os elementos da minha cultura possam ser respeitados.

Foi um desafio frequentar uma universidade católica como uma pessoa de candomblé. Às vezes eu ia com as minhas insígnias e minhas roupas brancas, criava naquele ambiente algum contraste. Não só faço questão que a minha presença seja notada, mas que minha religiosidade também esteja no universo acadêmico. Quando você diz que é sacerdote, a sua suposta neutralidade e objetividade científica caem por terra, e isso vira motivo para ter sua bolsa negada.

Folha surgiu no ano de maior perseguição na história da República às religiões de matriz africana. Nos anos 1920, tinha uma política de Estado de branqueamento, o que significava perseguir a cultura negra e os terreiros de candomblé. Os anos 1920 e 1930 foram terríveis para as religiões de matrizes africanas e para a população negra. Como a imprensa se colocou? A imprensa foi conivente? Ela foi justa, foi parcial? É papel da imprensa ser imparcial? A quem a Folha de S.Paulo serviu ao longo desses anos? Ela tem sido antirracista? Tem promovido a vida ou a morte de pessoas negras?

Violência simbólica gera violência real. Vemos isso com o governo implementando uma agenda teocrática e neopentecostal, que sempre demonizou as religiões de matrizes africanas. Com isso, eles estão dizendo quem pode ser morto e quem merece viver. Então, como um jornal atua na sua prática cotidiana de comunicar as políticas de morte e a promoção da igualdade e da justiça numa sociedade extremamente racista? Qual é o papel de um jornal numa sociedade como a nossa?

O candomblé era trazido para o jornal nas páginas policiais, era caso de polícia. Para se tocar candomblé na Bahia até o final dos anos 1970, você precisava de autorização da delegacia de jogos e costumes —e havia uma imprensa que adjetivava, de maneira muito negativa, qualquer matéria sobre candomblé. Hoje se tem um pouco mais de cuidado, mas ainda assim há um deslize aqui e ali.

Quando você vê um Bonde de Jesus, um Complexo de Israel e outras facções no Rio de Janeiro que estão impedindo pessoas das religiões de matrizes africanas de praticarem sua crença, me diga se é justo que a imprensa se manifeste de maneira neutra. Muitos adeptos dessas religiões cristãs admitem um traficante evangélico, mas não que eu tenha o simples direito de exercer a minha fé nos orixás.

Apropriação cultural é uma violência. É apagar a origem, distorcer e esvaziar de significado para tornar algo mais palatável. Esse lugar de origem tem que ser respeitado. Se há troca, não é apropriação. Agora, se você vem para trocar comigo e não deixa nada, você está me roubando.

Não tem a ver com o que o branco pode ou não usar. É um fenômeno estrutural, algo muito mais amplo que promove genocídio, que promove a morte de culturas. Não tem a ver com o branco não poder cantar samba, mas com o movimento que depura o samba porque acha ele muito primitivo e barulhento. Basta ver quem ganhou rios de dinheiro e quem morreu pobre na favela.