Candidato dispensado em entrevista acusa empresa de racismo

Fonte: Portal UOL: https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2021/03/15/candidato-processo-seletivo-racismo.htm

No mês passado, Matheus Levi, 21 anos, participou de um processo seletivo para trabalhar no setor de Recursos Humanos de uma metalúrgica em Piracicaba, interior de São Paulo. Alguns dias depois, a negativa enviada pela empresa de consultoria responsável pela seleção surpreendeu o jovem rapaz desempregado.

A empresa diz que agradece a participação de Levi, mas que não dará continuidade ao processo seletivo. Uma frase, porém, chamou atenção do piracicabano: “(…) Está (sic) área de RH, necessita de uma pessoa com boa postura, com ótima desenvoltura, ótima aparência. Pois, o RH é o centro da empresa e trabalhamos direto com o público (…)”.

Ele enxerga que a negativa da empresa foi motivada pelo preconceito racial. “Eu fiquei pasmo, a gente que é negro sabe o quanto é ruim você se sentir menosprezado por alguém, eu chorei muito, porque a gente é ser humano, a gente tem sentimentos, então eu fiquei muito abalado no momento que eu li”, afirma.

Levi fez um desabafo em uma rede social, dizendo que aquilo havia sido o pior retorno que já havia recebido de uma consultoria de RH. Ele questiona: “por eu ser negro eu não posso trabalhar no RH? Por eu não ser o padrão da sociedade, eu não posso exercer esta função?”.

Em entrevista ao UOL, Levi comentou que já havia notado um tratamento diferente durante a seleção, sendo o único negro entre os cinco candidatos: “eu fui o único candidato que não teve muita chance de falar. A recrutadora ficou conversando com os outros candidatos, fez um monte de perguntas para eles, e meio que me deixaram de lado”.

Além de não ter tido a oportunidade de falar sobre suas competências, uma questão feita pela recrutadora durante a entrevista pessoal fez com que Levi acreditasse que estava diante de uma situação de discriminação. A recrutadora teria perguntado “como você se sente hoje? Se você fosse uma outra pessoa, de uma outra etnia, como você se sentiria?”. Sem   pensar muito a respeito, Levi simplesmente respondeu: “seria a mesma pessoa, não mudaria em nada”. Sonho de trabalhar com Recursos Humanos Matheus Levi afirma que sua trajetória foi como aprendiz de RH e de administrativo, tendo feito cursos em ambas as áreas. Ele ressalta que, em diversos processos seletivos dos quais participou, era o único negro entre os candidatos.

No entanto, segundo Levi, ele nunca havia passado por uma situação como a última, desde a forma como o processo seletivo foi conduzido até a resposta por e-mail. Seus planos são conseguir se matricular em uma faculdade de Psicologia ou Gestão em RH.

Levi afirma que não foi a primeira vez que o jovem de Piracicaba vivencia o preconceito velado. “Eu já fui em lojas de roupa daqui da cidade e você vê que os atendentes te olham de um jeito diferente, não te atendem, outros te seguem, te perseguem no meio da loja, em supermercados seguranças também te seguem, então o racismo está em todos os lugares”, diz.

Empresa diz que requisito faz parte de sua visão

A reportagem do UOL entrou em contato com a Consultoria Personalizada, nome da empresa responsável pelo processo seletivo em que Matheus Levi participou. Questionada primeiramente sobre a resposta enviada ao candidato, no que se refere a exigência de uma “ótima aparência” para assumir o cargo, a consultoria respondeu por email que essa é uma visão da empresa.

“Nossos processos seletivos são internos e reservados. Não damos informações sobre/ou nomes de candidato e como funciona a nossa dinâmica. Quando mencionamos “boa aparência, boa postura, boa desenvoltura”, porque buscamos ótimos profissionais para que possamos atingir o que queremos. É a nossa visão, e não iremos mudar. Se algum candidato se ofendeu com isto, infelizmente não podemos fazer nada, infelizmente!”, diz a empresa por email.

Exigência vai contra leis trabalhistas De acordo com Maria Lucia Benhame, advogada trabalhista, sócia-fundadora da Benhame Sociedade de Advogados e pós-graduaca em Direito e Processo do Trabalho pela Universidade de São Paulo – USP, a exigência de uma “boa aparência” no processo pode demonstrar discriminação. “O artigo 373-A da CLT e a lei 9029/95 vedam esse tipo de conduta, há decisões judiciais sobre o tema condenando empresas a se abster desse tipo de anúncio, movidas inclusive pelo MPT (Ministério Público do Trabalho). Sobre o fato de o candidato ter sido questionado como se sentiria se pertencesse a outra etnia, para Benhame, a pergunta foi discriminatória.

“A questão da boa aparência em si não implica em racismo, mas as perguntas na entrevista individual indicam tal viés. A justificativa de não contratação também é discriminatória, já que não se fixa em competências para o cargo, como a desenvoltura que seria exigível em um cargo de comunicação, como por exemplo em relações públicas, mas a boa aparência realmente não tem nenhuma justificativa”, declara a advogada.