Brasil registra duas vezes mais pessoas brancas vacinadas que negras

Fonte: portal A Publica: https://apublica.org/2021/03/brasil-registra-duas-vezes-mais-pessoas-brancas-vacinadas-que-negras/

Vacinação começou com mulher negra, mas agora há mais brancos vacinados; mortalidade da covid-19 em negros é maior

Há mais pessoas brancas que negras vacinadas contra o coronavírus no Brasil. Essa é a conclusão de um levantamento exclusivo feito pela Agência Pública a partir dos dados de 8,5 milhões de pessoas que receberam a primeira dose das vacinas contra a covid-19 aprovadas e aplicadas no país.

Apesar de a vacinação no Brasil ter se iniciado com uma mulher negra há quase dois meses — a enfermeira Mônica Calazans — hoje há cerca de duas pessoas brancas para cada pessoa negra vacinada. A desigualdade permanece se considerarmos a divisão da população brasileira: há menos negros vacinados em relação à quantidade de brasileiros que se declaram negros quando comparada à população branca que foi vacinada.

A diferença nos dados de vacinação entre brancos e negros é ainda mais grave devido à desigualdade da mortalidade pela covid-19 no Brasil: das pessoas que tiveram a doença no país, há proporcionalmente mais mortes entre negros que brancos. Além disso, negros são a maioria absoluta dentre os casos registrados de covid-19 no Brasil e também das mortes.

Fila da vacina anda mais rápido para brancos que negros

Receber a primeira dose de uma vacina contra a covid-19 ainda é raridade no Brasil: o país vacinou apenas cerca de 4,5% da população com a primeira dose até o dia 14 de março. E apesar do Plano Nacional de Imunização do Ministério da Saúde incluir populações negras dentre os grupos prioritários — comunidades tradicionais quilombolas estão dentre os primeiros que deveriam receber a vacina — há menos pessoas negras vacinadas que brancas.

Segundo a Pública apurou, no Brasil, há 3,2 milhões de pessoas que se declararam brancas e que receberam a primeira dose de uma vacina contra a covid-19. Já entre pessoas negras, esse número cai para pouco mais de 1,7 milhão.

A Pública questionou o Ministério da Saúde sobre a diferença na vacinação de negros e brancos e se há alguma política para redução das desigualdades raciais em relação à vacinação ou à mortalidade da covid-19 para a população negra. O ministério ainda não respondeu à reportagem.

A médica Rita Borret, coordenadora do Grupo de Trabalho (GT) de Saúde da População Negra da Sociedade Brasileira de Medicina da Família e Comunidade, atribui a desigualdade na vacinação à diferença na expectativa de vida das populações negra e branca. 

“A população negra que chega a mais de 90 anos é menor que a população branca [na mesma faixa etária] porque a expectativa de vida da população negra é menor, tanto pela morte da juventude negra, por causas externas, quanto por todos os outros acometimentos que o racismo impacta, como a forma que se acessa saúde”, analisa.

A população negra é comparativamente mais jovem que a branca. Apesar de o Brasil ter mais pessoas negras que brancas, negros são minoria em todas as faixas etárias a partir de 40 anos de idade. Para se ter uma ideia, a partir dos 60 anos, havia cerca de 30% a mais de pessoas brancas que negras no último censo do IBGE, de 2010.