Brasil não dá protagonismo a dançarinos negros, diz bailarina Ingrid Silva

Fonte: Folha de S. Paulo

Bailarina principal do Dance Theatre of Harlem, em Nova York, Ingrid Silva está em São Paulo para lançar seu livro, “A Sapatilha que Mudou Meu Mundo”, que sai pela Globo Livros.

“Não é um livro de superação”, avisa a autora, apesar do título e de sua história de menina negra do subúrbio carioca que começou a dançar em um projeto social e tornou-se estrela em Nova York e na internet.

Assim como faz nas redes sociais, que usa para falar de temas como o racismo ou o lugar da mulher, Ingrid quis trazer em seu livro debates e questionamentos sobre o mundo atual e, a partir de sua experiência, sobre arte e diversidade.

“Muita gente fala de diversidade, mas, na prática, não está fazendo isso. O Dance Theater of Harlem é uma exceção, com maioria de negros dançando, mas a maior parte das companhias tem o quê? Três, quatro bailarinas negras?”

Quando muito, e para Ingrid muitas vezes pode ser o chamado tokenismo —termo usado por movimentos negros e de direitos civis para indicar inclusão simbólica—, uma concessão superficial a grupos minoritários.

“Inclusão de verdade é abrir possibilidades para quem não tem condição de aprender, dar acesso à arte, revolucionar a companhia ou instituição de dentro para fora, é implementar o uso de sapatilhas na cor da sua pele”, diz à reportagem.

Então, às sapatilhas. Além de, como símbolos do balé clássico, terem levado Ingrid para os palcos e para o mundo, a bailarina passou mais de uma década pintando as suas até conseguir que empresas fabricassem os calçados de dança na cor da sua pele.

“Mas essas sapatilhas para bailarinas negras ainda são difíceis de encontrar e mais caras que as rosas. As coisas estão mudando, mas ainda falta muito”, diz a artista de 32 anos.

O assunto do corpo negro na dança clássica é um dos temas predominantes no livro, autobiográfico, e também na atuação de Ingrid além dos palcos. Ela criou projetos sociais como o Black in Ballet, biblioteca digital na qual também são oferecidas aulas e apresentações online. Quer também realizar o maior festival de dança com bailarinos negros no Brasil, “assim que essa Covid passar”.

Apaixonada pelo balé, ela se pergunta se o gênero vai durar. “Se a gente não crescer, resolver as narrativas que usam caracterizações estereotipadas para representar personagens não europeus, a dança clássica vai continuar? O balé quer evoluir?

Criado nas cortes europeias por e para pessoas brancas, o balé se expandiu globalmente e mais pessoas tiveram acesso tanto à sua prática quanto à sua fruição. Isso trouxe diferentes corpos e nacionalidades para a linguagem, mas, segundo Ingrid, ainda há uma mentalidade atrasada na dança clássica.

“Uma obra de repertório pode ser tradicional, mas os corpos não precisam ser, a dança evoluiu. Muitas obras foram criadas há muito tempo, o que muda é quem está dançando. Ver essas narrativas em corpos diferentes é fazer essa arte evoluir”, diz.

Vivendo e trabalhando em Nova York, ela considera o Brasil um país pior para bailarinas e bailarinos negros. “Eu tive oportunidade de entrar em um projeto social, o Dançando Para Não Dançar. Aos 18 anos, fiz audição em três companhias e não passei em nenhuma. Assim que saí do Brasil, consegui trabalho. E ainda rola muito de não verem a bailarina negra como bailarina”, afirma.

“Como mudar isso? Tendo negras e negros como bailarinos principais, por que não? O Brasil tem 50% da população negra e não dá esse passo, é uma mentalidade muito retrógrada”, diz Ingrid, que conta no livro um episódio no qual uma professora a mandou “colocar o bumbum para dentro” se quisesse continuar na carreira.

Artista do corpo, é com essas histórias que Ingrid ilustra, nos capítulos do livro, a descoberta de si própria, de seu lugar no mundo e das muitas coisas pelas quais quer lutar.

Há um capítulo sobre sua “transição capilar”, quando deixou de alisar e cortar o cabelo, que considera um fato fundamental em sua trajetória. “No Brasil racista, meu corpo e meu cabelo não eram aceitos e me perdi muito nisso. Só quando me mudei para Nova York descobri poder ser quem eu quisesse e fui voltando para minhas raízes.”

Com cabelos curtos e crespos, Ingrid entrou de cabeça nos ativismos, vários. “Não sou uma pessoa que tem só uma causa, uma única luta. A gente tem que falar de todas as situações com as quais não concorda, não é só ser ativista de sofá, tem que se movimentar.”

Assim, ela também criou o Empowerher New York, uma organização para criar espaços seguros para as mulheres falarem sobre seus direitos e anseios. E, ultimamente, tem refletido e comentado muito sobre maternidade. Laura, sua primeira filha, nasceu há nove meses.

Engravidar, ser mãe e bailarina têm feito com que pense sobre mais lutas das mulheres. “Durante muito tempo, era preciso escolher entre a carreira na dança e a maternidade. Acho que isso não cabe mais, e estou usando a minha história como uma narrativa sutil para que as companhias abram espaço para suas profissionais serem as duas coisas”, diz à reportagem, enquanto dá de mamar à filha e um maquiador finaliza sua maquiagem para a sessão de fotos.