Barreiras para mulheres na ciência são concretas, não apenas falta de motivação, diz física

Fonte: Jornal Folha de S.Paulo: https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2021/02/barreiras-para-mulheres-na-ciencia-sao-concretas-nao-apenas-falta-de-motivacao-diz-fisica.shtml

Professora em Michigan (EUA), Marcelle Soares-Santos afirma que acabar com cotas raciais seria retrocesso.

Não é preciso criar iniciativas para motivar mais mulheres e meninas a virarem cientistas, diz a astrofísica e professora da Universidade de Michigan (EUA) Marcelle Soares-Santos. “Não é uma falta de interesse, existem barreiras concretas ao avanço de mulheres na carreira científica”, afirmou em entrevista por vídeo.

A astrofísica, que estuda a expansão acelerada do universo e é uma das pesquisadoras envolvidas no estudo que recebeu o título de descoberta científica do ano pela revista Science em 2017, diz que iniciativas de combate ao viés inconsciente têm efeito sobre a desigualdade de gênero no campo científico.

Ela é uma das retratadas no projeto “Entrevistas Além do Tempo”, uma história em quadrinhos que conta a trajetória de cientistas negros. A revista, parceria do pesquisador da USP Carlos Antônio Teixeira e a Embaixada e os Consulados dos EUA, foi lançada na quinta-feira (24).

Eu sempre fui muito curiosa, tive a fase dos “porquês” e acho que nunca saí dela. Eu sempre fiquei me perguntando “por que exatamente desse jeito?’ ou “por que os constituintes do universo são dessa forma?”, e ir para a área da física, da cosmologia, foi o jeito que achei para responder essa curiosidade.

O que exatamente está estudando neste momento?

A matéria escura e a energia escura. São dois conceitos que estão interligados e são o próximo grande desafio da nossa área. Matéria escura significa matéria invisível, e para cada átomo do universo há outras cinco unidades de matéria escura. A gente não sabe qual a natureza física dela e ainda não consegue reproduzir em laboratório, mas tentamos descobrir como ela afeta os objetos luminosos.

Já a energia escura é um mistério ainda maior. Ela está no espaço vazio entre as galáxias e é um campo de grande energia ligado à expansão acelerada do universo.

Por que este é o próximo grande desafio?

O efeito da energia escura no universo é de causar expansão acelerada, então entendendo a gente vai saber qual vai ser a evolução do nosso universo. Será que ele vai se expandir para sempre ou vai colapsar? Atualmente a gente não consegue responder.

Por outro lado, sempre me perguntam sobre aplicações mais práticas. É difícil dizer qual será exatamente, porque essa área é bem abstrata. Mas muitas vezes a caminho de descobrir uma determinada coisa a gente acaba desenvolvendo outras tecnologias. O desenvolvimento que foi necessário para produzir câmeras digitais como as de hoje foi consequência de pesquisas que eram feitas para a astronomia, para estudar objetos bem fracos e distantes.

Essa é uma das coisas fundamentais da pesquisa básica: ela não está focada numa aplicação imediata, mas sem investimento de tempo e energia nela, a pesquisa aplicada não pode existir.

Como fica a pesquisa abstrata num momento de cortes de financiamento da ciência?

No Brasil, a impressão que eu tenho é que de que é difícil, porque esse desenvolvimento leva muito tempo e esse tempo é maior do que o ciclo da vida política. Isso gera turbulência no processo de financiamento da pesquisa e acaba gerando problemas, porque não é uma questão de que você pode diminuir os recursos e depois aumentar e recuperar como se nada tivesse acontecido. Você perde tempo, perde momento [impulso] quando faz isso.

Comparando com países desenvolvidos, essas turbulências são muito grandes, e fica mais difícil você manter a trajetória de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, a comunidade científica no Brasil é muito forte apesar dessas flutuações, aprendeu a lidar com as dificuldades e segue adiante.

Mas as instituições públicas de pesquisa no Brasil teriam potencial de serem mais efetivas se houvesse mecanismos que permitissem que essas flutuações não fossem tão agressivas.

pandemia mostrou que uma parcela da população não acredita em evidências científicas. Por que há esse descrédito da ciência?

No caso do Brasil, eu acho que parte pode estar relacionado à questão de que o ensino de ciência não abrange a população como um todo. E outra coisa que me preocupa é que nós, cientistas, quando estamos nos comunicando com o público em geral, muitas vezes tentamos comunicar o aspecto técnico e não nos conectamos com as pessoas no nível pessoal.

Essa é uma das coisas que me atraiu nesse projeto [“Entrevistas Além do Tempo”], porque eu acho que utilizar formatos diferentes, que sejam mais próximos do que a pessoa tá acostumada, pode ser uma maneira de atingir esse público.

Como mudar a percepção de que a experiência empírica pessoal vale mais do que evidências demonstradas por estudos?

A gente tem que enfatizar que a experiência que a pessoa teve é real, porque se você desconsiderar de cara, cria uma barreira. Mas precisamos comunicar que a experiência individual não necessariamente é representativa de todo o coletivo, e que embora uma determinada experiência tenha dado certo pra você não necessariamente vai dar certo para todo mundo.

E isso não é trivial de se fazer entender, mas é uma coisa na qual a gente tem que insistir. Eu noto que as pessoas têm uma curiosidade e sabem que um cientista tem um conhecimento que elas não têm sobre algo. Mas muitas vezes a mensagem que chega primeiro e mais forte é pseudociência.

Acho que falta uma inserção mais forte das mensagens que estão vindo direto do mundo científico com linguagem acessível e apontando para a realidade.

A sra. já sofreu racismo na sua área?

Uma das coisas que me atrai nesta linha de pesquisa é o fato de que, embora existam desafios por conta de discriminação, eu me sinto parte de uma comunidade.

Nem todo mundo teve a mesma experiência, claro, mas durante minha carreira eu tive apoio de muitas pessoas que não necessariamente se pareciam comigo, mas que estavam interessadas em aprender comigo, e me ajudar a aprender e me tornar expert na minha área.

Isso é o que eu tento dizer quando estou em posição de orientadora ou falando para o público geral. Tem espaço para pessoas de todas as origens, e facilitar essa entrada é algo que eu coloco para mim como objetivo.

Em 2022, deve haver a revisão da Lei de Cotas no Brasil. Como a sra. vê esse sistema?

O ideal seria que não existissem cotas, que todas as pessoas tivessem a mesma chance, a mesma oportunidade de participar da vida da universidade, entrar em curso superior e escolher a carreira que querem. Na realidade, não estamos nesse nível ainda, então o sistema de cotas pode ser imperfeito, mas está tentando balancear um pouco as coisas.

Eliminar as cotas completamente seria desistir de resolver o problema. Fazer uma revisão não é ruim, mas se for uma coisa binária podemos retroceder em vez de avançar.

Ainda falando sobre representatividade na ciência, como aumentar a presença feminina na pesquisa?

Muitas vezes as pessoas presumem que as mulheres ou meninas não têm o mesmo nível de interesse pela carreira científica, e as iniciativas que eu vejo nessa área tendem a ser de motivá-las. Na minha experiência eu acho que não é uma falta de interesse, existem barreiras concretas ao avanço de mulheres na carreira científica.

E a evidência que temos disso é que se você olhar as estatísticas de mulheres na carreira acadêmica, em todos os campos o número diminui à medida que você avança de nível, seja estudante de graduação para pós e daí para professor. Em parte, isso pode ser melhorado com iniciativas que estão fazendo um processo mais anônimo, para evitar o viés inconsciente.

No caso do telescópio Hubble, por exemplo, para fazer determinadas observações, você precisa submeter uma proposta de pesquisa. E as propostas com homens recebiam mais aprovações. O que começaram a fazer é um sistema em que a identidade de quem fez a proposta fica em segredo, e eles notaram que a discrepância de gênero sumiu.​