Aluno da FGV que chamou colega de ‘escravo’ é condenado por racismo

Fonte: Portal G1: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2021/03/22/aluno-da-fgv-que-chamou-colega-de-escravo-e-condenado-por-racismo.ghtml

Gustavo Metropolo mandou mensagem em grupo do Whatsapp em que dizia ‘ter encontrado um escravo no fumódromo’ da faculdade, em São Paulo. Caso foi revelado pelo G1. Juíza substituiu pena de prisão por prestação de serviços à comunidade . Em interrogatório no início do mês, ele negou o crime. A defesa do aluno diz que vai recorrer da decisão.

A Justiça de São Paulo condenou o estudante Gustavo Metropolo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a 2 anos e 4 meses de prisão, em regime aberto, pelos crimes de racismo e injúria racial após o aluno chamar um colega negro de “escravo” em um grupo de WhatsApp. O caso foi revelado pelo G1 em março de 2018.

A decisão, da juíza Paloma Assis Carvalho, da 14ª Vara Criminal de São Paulo, porém, substituiu a pena privativa por serviços à comunidade, no mesmo período em que ele cumpriria a pena na prisão. Outro juiz determinará qual serviço será feito pelo condenado. O estudante terá ainda que pagar 5 salários mínimos à vítima.

A defesa do réu disse que recebeu com “serenidade” a decisão e que vão recorrer.

Na sentença, a juíza determinou ainda que o réu possa eventualmente recorrer da decisão em liberdade, já que, segundo Paloma, “não houve, durante a instrução, qualquer motivo ensejador de custódia cautelar, e diante da substituição da pena, tampouco há agora”. O réu também terá que pagar as custas do processo.

A juíza proibiu também que a imagem da conversa em que ficou caracterizado o racismo continuasse a ser divulgado por qualquer meio na internet, e oficiou o Google e o Facebook sobre a determinação.

Durante interrogatório, no início do mês, Gustavo negou a autoria do crime, segundo os advogados da vítima que participaram da sessão, afirmando que teve o celular roubado na época do episódio e não fez a postagem ofensiva.

Na sentença, porém, a magistrada refutou a tese, afirmando que o ato foi cometido pelo réu e que atingiu toda a sociedade.

“Nota-se que a conduta do réu se dirigiu tanto à coletividade quanto à vítima. Isso porque no contexto em que publicada (grupo de amigos), dentro de uma instituição renomada e voltada a classes abastadas da sociedade, observa-se a intenção de segregar um aluno preto, que não “poderia pertencer” àquele mundo. Além disso, ao dizer que encontrou um “escravo”, o acusado objetifica a vítima, dando a entender que ela só poderia estar naquele local acompanhada de seu “dono”. Nesse contexto, com a postagem, o autor diminuiu e ofendeu toda a coletividade de pessoas pretas, principalmente, as que frequentavam a faculdade à época dos fatos”, escreveu a magistrada na decisão.

Versões e histórico

Gustavo Metropolo foi acusado de tirar uma foto de um colega negro na faculdade e compartilhar em um grupo de conversas pelo aplicativo com a frase: “Achei esse escravo no fumódromo. Quem for o dono avisa!”.

No decorrer do processo, professores que participaram da comissão da FGV que apurou o caso foram ouvidos como testemunhas e confirmaram que Gustavo confessou o crime. Na decisão, a juíza citou uma série de depoimentos de estudantes que confirmaram os fatos narrados em 2018.

A vítima, João Gilberto Lima, que também era aluno da instituição, foi informado sobre a mensagem com a foto pela coordenação do seu curso (Administração Pública). Na época, o aluno registrou um boletim de ocorrência por injúria racial no 4º Distrito Policial da Consolação, na região central de São Paulo.

Antes do interrogatório final, a vítima afirmou ao G1 que buscava a punição pelo crime para evitar que novos casos de racismo se repitam.

“A importância de um caso como esse é estimular as pessoas a irem atrás de fazer a denúncia. Como eu falo, é algo recorrente que acontece bastante no Brasil tanto que a mídia agora está trazendo à tona. É importante as pessoas não ficarem caladas e buscarem os seus direitos, é o que fica. Eu não tenho pretensão de acabar com o racismo, infelizmente, eu não tenho esse poder de acabar com o racismo, de acabar com o preconceito em si. Racismo não é mais brincadeira, racismo é um crime”, disse ele em entrevista em 2020.

Quando houve o crime, o estudante disse ainda que recebeu muito apoio dos colegas e amigos. “Eu continuei cursando eu tive bastante apoio, principalmente, do coletivo, do diretório acadêmico e outras entidades que também me deram apoio, além da coordenação do meu curso que é administração pública”, disse.