Além do vírus, fome

Fonte: Artigo de Ana Cristina Rosa para o jornal Folha de S.Paulo: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ana-cristina-rosa/2021/03/alem-do-virus-fome.shtml

Alguma coisa vai muito mal quando ir às compras no supermercado se torna um ato angustiante e motivo de tristeza. Pois na capital federal chegamos a esse ponto. Está cada vez mais difícil entrar pela porta da frente de um supermercado sem ser abordada por criança ou adulto a pedir por comida.

Pudera. No auge da pandemia no Brasil, o desemprego é recorde, a tendência é de aumento dos juros e a inflação disparou. Para completar, nos últimos 12 meses a alta de preço dos alimentos representa quase o triplo do percentual da inflação oficial, segundo a aferição do IBGE.

Além do aterrorizante crescimento exponencial das mortes por Covid-19, o empobrecimento da maioria da população é fato que chama atenção e preocupa nesses tempos sombrios. O agravamento do nível de insegurança alimentar atinge mais de 10 milhões de brasileiros segundo as estimativas oficiais. É gente que está passando fome, que vai deitar de barriga vazia e acorda sem saber se terá o que comer ao longo do dia.

Não bastasse isso tudo, falta vacina para frear a disseminação do vírus que se alastra num ritmo frenético enquanto sobram promessas sucessivamente descumpridas e exclamações descabidas na linha do “vai trabalhar, vagabundo!”. Resta apenas saber onde trabalhar frente a um cenário de desemprego que em 2020 atingiu mais de 13 milhões de pessoas, das quais pretos e pardos destacam-se negativamente, uma vez que o impacto do desemprego foi 58,7% maior entre os negros como apontou reportagem da Folha.

A tragédia social é enorme e visível a olho nu. Em Brasília, áreas verdes vêm sendo tomadas por barracas improvisadas com sarrafos cobertos por sacos de lixo. São espaços habitados por homens, mulheres e crianças desumanizados, vivendo pior do que muito bicho. À mercê da sorte, contam com a benevolência de quem tem mais do que precisa e está disposto a compartilhar um pouco do que sobra. É o popularmente chamado quadro da dor. E sem moldura.

Ana Cristina Rosa é Jornalista especializada em comunicação pública e coordenadora da Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABCPÚBLICA) – Seção Distrito Federal.