Time criativo (1)

Agência Grey cria projeto de Comunicação para Movimento AR

Luciana Rodrigues, CEO da Grey, explicou,
durante essa entrevista, o engajamento da agência ao Movimento AR e a parceria
com a Universidade Zumbi dos Palmares, como foi para equipe criar toda
comunicação do Movimento em meio à pandemia de Covid-19. A CEO falou ainda
sobre as transformações do mercado publicitário em relação aos negros e a
segmentos mais vulneráveis da sociedade como LGBTQIA+. Convidamos você a conhecer
um pouco mais sobre essa agência que tem mais de cem anos e se mantém sempre
antenada às novas tendências e causas sociais relevantes.

Luciana Rodrigues

CEO da Grey

01. Por que a Grey resolveu abraçar a causa do
Movimento AR?

Para nós, poder abraçar essa causa num momento tão
importante foi um privilégio e ao mesmo tempo uma grande responsabilidade. E
digo isso por dois motivos. O primeiro deles é por receber um projeto alinhado
com o nosso propósito, pois acredito que devemos praticar internamente o que
desejamos mudar na sociedade.

E o segundo motivo é por realizar tudo isso ao lado
da Universidade Zumbi dos Palmares: um parceiro que nasceu da luta contra o
racismo que, na minha visão, hoje é uma responsabilidade de todos.

 

02. Qual foi a participação da Grey no Movimento AR
uma vez que a proposta chegou a vocês de forma embrionária?

Recebemos essa proposta logo após a explosão da
#vidasnegrasimportam. Acredito que esse seja o desafio dos sonhos, pois temos a
ambição de mudar de fato a realidade do negro no Brasil. Nossa missão era
materializar um movimento idealizado pelo reitor José Vicente. Então, juntos
pensamos qual seria a melhor forma de convidar as pessoas a se engajarem e se
responsabilizarem pela causa. Foi aí que nos inspiramos nos milhares de George
Floyds que o Brasil possui e criamos o Movimento AR.

 

03. Além da criação das peças publicitárias, site,
mídias sociais, o que mais a Grey elaborou para o Movimento AR?

O nome do movimento, o conceito criativo, linguagem
verbal e visual também foram criações da Grey, mas como comentei anteriormente,
tudo foi feito em colaboração. Até mesmo porque, é imprescindível que o
processo criativo seja inclusivo, com um time diverso. Aqui vale o destaque
para o designer, ilustrador e ativista negro, Oga Mendonça. Ele foi o
responsável pela criação do logotipo do movimento e nos inspirou em toda
direção de arte das peças. Além disso, é importante lembrar que o Movimento AR
possui metas a longo prazo, então sabemos que ainda temos muito trabalho pela
frente.

 

04. Como foi o engajamento da equipe?

Esse foi um projeto que teve uma equipe dedicada
para que ele fosse viabilizado em menos de duas semanas. Foi um projeto muito
bem recebido por todos os nossos colaboradores que compartilham da nossa
angustia de que o Brasil precisa agir.

 

05. A parceria com a Universidade Zumbi dos
Palmares já vem de alguns anos. Você pode falar um pouco sobre isso?

A parceria com a Zumbi é fundamental para
construção dos valores da agência. E isso vale tanto para nossa cultura de
inclusão quanto para nossa reputação criativa. E é uma satisfação muito grande
pra ver como isso está interligado. A maior prova disso foi o resultado do
Machado de Assis Real. Um projeto que teve a participação ativa dos estagiários
da Zumbi dos Palmares, criando um impacto real na sociedade.
Com esse projeto, conseguimos revelar a verdadeira imagem de um dos maiores –
senão o maior – escritores brasileiros, ensinando para o Brasil e o mundo que
ele era negro.

 

06. Como você analisa a atual situação do Mundo com
relação ao ódio e preconceito racial?

Eu enxergo a mudança, mas sinto que muito precisa
ser feito. A escravidão foi “abolida” há 132 anos, mas ainda assim o
preconceito e o ódio racial seguem enraizados. Encontraram uma idosa em
situação análoga a escravidão recentemente, sabe? Estamos em 2020 e ainda
precisamos resolver questões básicas. No entanto, projetos como o Movimento AR
me enchem de orgulho e espero que encham os pulmões dos negros de ar, para que
eles possam trabalhar estudar e superar toda essa situação.

 

07. Como você vê as relações das questões raciais e
o mercado publicitário?

Os negros são maioria no nosso país, 56%, mas ainda
são minoria em muitos mercados e isso também inclui o publicitário. Não faz
sentido. Não dá pra imaginar a comunicação sem que não tenhamos representantes
ecoando suas vozes. Também não adianta ter um filme com um protagonista negro e
não contar com eles na agência para criar esse roteiro. Sei que essa mudança é
lenta e é exatamente por isso que busco mais ações afirmativas que mudem esse
cenário. Essas medidas começam de dentro pra fora da agência, de cima para
baixo do board. Um exemplo disso foi
a contratação da Priscila Mendes. Uma profissional brilhante que assume a
posição de líder de transformação da agência.

 

08. Acompanhamos um recente aumento de propagandas
com negros protagonizando. A que você atribui isso? Já estamos num momento de
maturação ou é outro fator?

Acho que respondi um pouco na pergunta anterior,
mas o ponto é exatamente sobre ter uma conduta de ações afirmativas. Não
adianta falar, mostrar e debater sem colocar em prática sabe? A indústria da
comunicação já percebeu que esse caminho não tem volta. E como essa “conta”
chegou atrasada, estamos pagando um preço alto por isso. Somos cobrados com afinco
sobre o assunto e é exatamente por isso que precisamos mudar agora. A
propósito, essa reflexão retorna para o conceito do Movimento AR: ações
concretas por vidas negras. Ou seja: não é mais hora de conscientizar e
refletir, mas sim de agir. Não ser racista é mínimo.
Precisamos ser antirracistas, pois só assim vamos mudar de verdade o nosso
mercado.

 

09. Fale um pouco sobre a história da Grey,
colaboradores, clientes, principais áreas de atuação.

A Grey nasceu em 1917, já passou por guerra, mudou
de nome, de endereço, de liderança. É uma rede conhecida no mundo todo e aqui
no Brasil está em constante transformação. Pra mim isso é maravilhoso, pois o
mundo se transforma da mesma forma e ter que acompanhar isso é um desafio para
todos. Tanto para nós, como agência, quanto para os nossos clientes, como
P&G, Volvo, Drogaria São Paulo, Devassa, 99 Food, entre outros. Arrisco
dizer que essa inquietação e vontade de fazer diferente só fortalecem o nosso
relacionamento.

O mantra global da Grey é o Famously Effective
(Trabalho Famoso é trabalho efetivo) e para mim ele também tem tudo a ver com
transformação.

Uma banda só se mantém no auge por muito tempo
quando ela se reinventa, se atualiza e se transforma. No meu ponto de vista, se
transformar é a única maneira de permanecer famoso e efetivo por mais tempo.

E aproveitando esse ponto, uma das mudanças que
aplicamos é olhar mais para as habilidades das pessoas do que para os seus
rótulos. Acredito que desse jeito é possível encontrar o que existe de mais
original em cada profissional e criar algo único para o nosso público. Afinal,
nosso negócio é feito de pessoas para pessoas.

 

10. Por favor, fale um pouco sobre você: formação
há quantos anos é CEO da Grey, quais os principais trabalhos, desafios e metas
para o pós-pandemia.

Cheguei na Grey há 6 meses, no meio da pandemia. Os
aprendizados são diários, alguns erros e outros acertos. Estamos passando por
um momento muito difícil e se não houver uma liderança humanizada, o fracasso é
iminente. Sempre pautei minha carreira em como usar meu privilégio em prol do
social e, portanto, sinto que minha obrigação é fomentar e apoiar pautas sobre
diversidade e raça.

No mundo da comunicação,
respiramos e inspiramos o discurso das nossas marcas. Juntos decidimos a melhor
forma de abordar e conversar com o nosso público.

Existem muitas ideias no ar, mas para Grey as verdadeiras são aquelas
que provocam uma atitude. Essa é a melhor forma de conectar nosso trabalho ao
propósito de alguém. Nesse momento, mais importante que comunicar é AGIR.

Outro privilégio é ter clientes com os
nossos, que estão se mobilizando para fazer a diferença no mundo. No ultimo
mês, lançamos duas campanhas alinhadas com o nosso propósito: Pantene Brasil
celebrou o mês do Orgulho LGBTQIA+ trazendo o conceito de que “O Amor tem
muitas fórmulas” e Gillette exaltou a “nova” masculinidade, falando sobre
vulnerabilidade e indo contra os estereótipos de gênero, da forma mais honesta
e sensível.