A urgência de se reequilibrar a diversidade étnico-racial e as belezas plurais

Fonte: Harper´s Bazaar: https://harpersbazaar.uol.com.br/estilo-de-vida/alexandra-loras-a-urgencia-de-se-reequilibrar-a-diversidade-etnico-racial-e-as-belezas-plurais/

A embaixadora do Movimento AR, Alexandra Loras, reconhecida por ser consultora de mudança organizacional, jornalista e palestrante é a nova Sensitivity Reader de Harper’s Bazaar .

Parabéns à nossa embaixadora!

Confira o artigo de nossa embaixadora na revista Harper´s Bazarr

Atravessamos desde o ano passado um dos momentos mais duros e difíceis da história recente e que, certamente, implicará em mudanças drásticas nas nossas formas de viver, trabalhar, construir relações e, sobretudo, pensar e sentir. O isolamento social, o medo do adoecimento e da morte, as mudanças alimentares, de vestimenta e de nossos hábitos cotidianos nos impactaram imensamente e, talvez, ainda não consigamos enxergar e nem prever as consequências disso. Portanto, prestar atenção à diversidade de corpos, ao antirracismo e à uma moda menos excludente, ganhou ainda mais importância na Harper’s Bazaar Brasil.

A necessidade e desejo para o título reforçar esta postura se concretiza com o convite que recebi para desempenhar a função de Sensitivity Reader da revista. Tarefa que tem como função lançar novos olhares, participar da curadoria das edições, com o propósito de atuar nas construções de novas formas de representação, em treinar a equipe para que possa se alinhar corretamente sobre racismo, opressões, estigmas e os muitos viéses implícitos e inconscientes estruturais.

O mundo da moda e sua indústria têm aos poucos deixado de serem hostis aos corpos fora do padrão imposto. Mesmo para os que seguem o padrão, o ambiente precisa ser menos violento, vide transtornos alimentares que modelos sofreram com frequência.

Há uma história das formas como os corpos humanos são representados e também das formas como eles são corrigidos. A magreza e a branquitude nem sempre foram ideais de beleza, há diferenças estéticas imensas, desde a famosa estatueta da Vênus de Willemdorf, até representações renascentistas e, por fim, aquelas das revistas de moda.

Contudo, se pensarmos as representações dos corpos negros, transexuais, gordos e afins, veremos que ganham frequentemente uma “hipervisibilidade corretiva”. Das experiências de androgenizacão na Alemanha nazista, passando pelo império da magreza dos anos 1990, os corpos das mulheres negras estiveram sempre submetidos à correção.

A visibilidade conhecida destes corpos aparecia em shows de horrores ou por meio de fins médicos experimentais. A história de Saartjie Baartman é um exemplo disso. Levada no século 19 de seu país na África do Sul, foi exposta em circos na Europa como “mulher macaco”. Seu corpo e suas curvas foram considerados monstruosos e, após sua morte, continuou exposto para o interesse médico, mutilado e esmiuçado pela ideologia do racismo científico.

Para além disso, as representações corporais negras foram sempre rumo à animalização, à sexualização e a exotificação. Embora esses acontecimentos já sejam passados, quero dizer que é responsabilidade de revistas e campanhas de moda transformarem seus discursos e atualizarem suas práticas. Minha atuação na Bazaar, neste momento, visa provocar e construir novas falas e incrementar resultados.

E não nos enganemos, não se trata apenas de consciência social, há um emergente mercado de consumidoras negras e negros, gordos e gordas que também se interessam por moda, que precisa ser cada vez mais considerado. É necessário focar nesses novos públicos. Minha equipe – composta por intelectuais, aliados e ativistas trans, negros e LGBTQIA+ – e eu nos juntamos à equipe de Bazaar com essa deliciosa missão! Me despeço com a expressão em zulu, pedra angular da ética ubuntu: “Umuntu ngumuntu ngabantu” – “Uma pessoa se torna uma pessoa por causa das outras.”