A tradução do preconceito

Fonte: Revista IstoÉ: https://istoe.com.br/a-traducao-do-preconceito/

Para que a luta contra toda e qualquer segregação racial seja vitoriosa no mundo há uma condição indispensável: Ela tem de sair de seus respectivos guetos e ganhar a dimensão de uma ação em nome da democracia social e dos direitos civis. Esse tema voltou a ser comentado em diversos países, na semana passada, devido à polêmica envolvendo o nome de Amanda Gorman, a poeta “magrela e preta de 23 anos” (como ela própria se definiu), que brilhou na posse do presidente norte-americano, Joe Biden. Na ocasião, Amanda declamou a poesia de sua autoria “The Hill We Climb” (“A Colina Que Nós Subimos”, em tradução livre).

Parece que o mundo editorial não entendeu o que Amanda quis dizer. Um trecho de seu poema frisa o seguinte: “Para nos concentrarmos no futuro, devemos antes de mais nada deixar de lado nossas diferenças”. A editora holandesa Meulenhoff convidou a tradutora Marieke Lucas Rijneveld, uma das mais conceituadas do planeta, para verter a poesia. A jornalista e militante da causa negra, Janice Deul, metralhou com críticas o fato de Marieke, uma mulher branca, traduzir uma mulher preta. Aí está o erro de sectarismo pelo avesso: O que deveria contar não é a cor da tradutora, mas, sim, a sua competência — e isso Marieke tem de sobra, tanto que é a mulher mais jovem a ter recebido o prêmio Booker International. Ou seja: Fez-se com a tradutora o contrário daquilo que a jovem guerreira Amanda propõe. O mundo ideal será aquele em que branca traduzirá negra e negra traduzirá branca, o mesmo ocorrendo com as demais etnias. “Perdemos uma imensa oportunidade de dar aos holandeses a obra de Amanda em nosso próprio idioma”, diz um dos diretores da editora Meulenhoff.