A praga do racismo

Fonte: Jornal Correio Braziliense: https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao/2021/02/4906165-a-praga-do-racismo.html

”Enquanto a ciência busca respostas para desmascarar de vez esse terrível preconceito, o racismo estrutural segue imbatível, inclusive matando, por falta de educação e de punição”

Em sua brilhante obra Sapiens – Uma breve história da humanidade, que acaba de ser adaptada para quadrinhos, o filósofo e historiador israelense Yuval Noah Harari conta a trajetória do Homo sapiens desde seu surgimento, há 2,5 milhões de anos, na África oriental. E, principalmente, a partir do seu grande salto evolutivo, há cerca de 70 mil anos, que Harari chama de evolução cognitiva, com a invenção da ficção (religiões, mitos, nações, marcas de produtos…), que propiciou a supremacia do sapiens sobre as demais espécies humanas e os outros animais, quando se espalhou pelo mundo.

A ciência ainda tenta explicar se o sapiens aniquilou (substituiu) ou se miscigenou com os neandertais, espécie humana que povoava a Europa e parte da Ásia. Entre os pesquisadores prevalecia a primeira hipótese, a teoria da substituição. “Os cientistas não tinham interesse algum de abrir a caixa de Pandora do racismo ao afirmar a existência de uma diversidade genética significativa entre as populações humanas modernas”, diz Harari na obra.

Tudo mudou, entretanto, em 2010, quando foram publicados estudos de mapeamento genético dos neandertais. Geneticistas coletaram DNA intacto de fósseis neandertais em quantidade suficiente para comparar com o DNA de humanos contemporâneos. E o resultado surpreendeu a comunidade científica. “Revelou-se que de 1% a 4% do DNA das populações modernas do Oriente Médio e da Europa é de DNA de neandertal”, lembra Harari. Houve miscigenação, mesmo que pequena.

Fato é que os neandertais desapareceram há 30 mil anos, com ou sem genocídio, e os sapiens se tornaram senhores absolutos do planeta, a única espécie humana viva. Em tese, não haveria mais racismo. Harari deixa claro que, desde então, não existe raça branca, negra ou amarela, existe apenas uma raça, a humana, o Homo sapiens, e, por isso, o racismo não se justifica.

Tal constatação, entretanto, não impediu a proliferação da praga do racismo como um vírus incontrolável pior do que qualquer pandemia. As diferenças de cor da pele e da compleição nada têm a ver com raça, e, sim, com adaptações do corpo humano às diferentes regiões do planeta que o sapiens colonizou. Os primeiros sapiens que chegaram à Europa, por exemplo, tinham a pele escura por causa do clima quente na África e precisavam de proteção natural contra a luz solar. Na Europa, a pele branqueou com o decorrer dos milênios.

A ciência ainda estuda se o racismo é um fenômeno biológico ou sociológico. Existem indicativos de que é social, um conceito aprendido, como uma opinião formada pelo indivíduo antes de adquirir conhecimentos adequados, uma falsa superioridade sobre o outro. Afinal, as diferenças genéticas são mínimas. “Nós não identificamos em animais um correlato exato ao preconceito, especialmente porque preconceito é uma construção verbal e social típica das culturas humanas”, afirmou a professora Patrícia Izar, doutora do departamento de psicologia experimental da USP, em recente entrevista ao site Ecodebate.

O geneticista mineiro Sérgio Pena é enfático: “Ao postular a existência de uma natureza humana evolucionariamente moldada para ser etnocêntrica, paroquial, bairrista e chauvinista, esses discursos geralmente terminam por atribuir ao racismo uma inevitabilidade natural. Isso não é verdade, pelo contrário, as ‘raças’ e o racismo não têm nenhuma justificativa biológica e não passam de invenção muito recente na história da humanidade”. Enquanto a ciência busca respostas para desmascarar de vez esse terrível preconceito, o racismo estrutural segue imbatível, inclusive matando, por falta de educação e de punição.

Pelo bem comum

E o carnaval chegou. Mas o que era para ser sinônimo de festa, de alegria, deu lugar à preocupação em 2021. Há muitas incertezas sobre o “feriado prolongado”. Apesar de muitas cidades terem suprimido o ponto facultativo na segunda ou na terça, existe um clima de folga extra no ar. E a grande dúvida é, em um cenário de escassez de doses da vacina e com a circulação do novo coronavírus ainda fora de controle, como será o comportamento do brasileiro entre hoje e a quarta-feira de cinzas.

Blocos e festas de carnaval estão proibidos no Distrito Federal durante os dias de momo. A multa pode chegar a R$ 20 mil aos responsáveis. Estamos em um momento de atenção sanitária e a medida é correta, mas sabemos que será insuficiente para evitar cenas de desrespeito à ordem pública, com aglomeração de pessoas, o que é justamente o grande temor de infectologistas por conta da nova cepa da Sars-CoV-2. Como as equipes de fiscalização são insuficientes, vai depender basicamente de empresários e clientes o cumprimento da regra imposta.

E, neste ponto, é necessário ter uma atenção especial com os bares e o entorno deles. O funcionamento está liberado, sem restrição de horários. Muitos empresários cumprem à risca as determinações legais, com limitação de público e mesas distanciadas, mas, ao redor dos empreendimentos, existem bolsões em que ambulantes atuam sem nenhum tipo de impedimento e que acabam provocando uma grande concentração de público, principalmente, quando os estabelecimentos fecham. É um problema que ocorre com certa frequência em pontos da Asa Norte e do Sudoeste, com frequentes queixas dos moradores.

É necessário ressaltar que o carnaval é uma festa popular muito importante e o cancelamento dele terá consequências graves para a sociedade. Gera bilhões na economia, estimula o turismo, reforça o caixa de estados e municípios e mantém empregos. Mas, depois de 11 meses de uma pandemia que parece sem fim, não restou outra alternativa às autoridades a não ser desidratar a folia. Pelo bem comum, tem de se cumprir. Além de ficar na torcida para que a vacinação em massa propicie um cenário diferente em 2022. É o que desejo.