A Dádiva do Amor’, de Luther King, chega ao (‘Big Brother’) Brasil do ódio

Fonte: jornal Folha de S.Paulo – Denise Mota: https://pretapretopretinhos.blogfolha.uol.com.br/2021/02/16/a-dadiva-do-amor-de-luther-king-chega-ao-big-brother-brasil-do-odio/

“Os idealistas em geral não são realistas, e os realistas em geral não são idealistas. Os militantes não costumam ser conhecidos por serem passivos, nem os passivos por serem militantes (…). Mas o melhor na vida é uma síntese criativa de opostos em harmonia frutífera. O filósofo Hegel disse que a verdade não é encontrada nem na tese nem na antítese, mas em uma síntese que reconcilie as duas.”

Por aí começa Martin Luther King Jr. (1929-1968) – líder máximo da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos – o sermão “Uma Mente Rigorosa e um Coração Sensível”, escrito há mais de 60 anos e que chega ao Brasil em tradução ao português no volume “A Dádiva do Amor”, em lançamento pela editora Planeta.

Alçado tanto à glória como ao rechaço por brancos e negros ao longo dos seus breves 39 anos de vida, Luther King pode ter algo a nos ensinar sobre militância, convicções, poder, representatividade e interlocução (afiada, mas verdadeira) com quem pensa diferente. E é boa notícia que essas reflexões suas aterrissem no Brasil neste momento.

Os ativistas de movimentos com plataformas feministas, antirracistas, LGBTQIA+ estão de cabelo em pé com a edição 2021 do “Big Brother Brasil”. O reality show da Globo, que de forma explícita e calculada decidiu colocar as chamadas pautas identitárias no centro do programa desta vez, está expondo nada mais do que o de sempre, as misérias humanas que caracterizam – justamente, e perdão pela redundância – todos nós, os humanos.

Representatividade, militância, lugar de fala, ser racializado, ser discriminado, conhecer na pele os danos emocionais, físicos, sociais da desigualdade não eximem ninguém de ser cruel, preconceituoso, egoísta, autoritário ou oportunista, de advogar o próprio umbigo sob o manto das causas coletivas.

A pulverização do diálogo, evidente pela já normalizada polarização política brasileira, também se cristaliza há tempos no cotidiano de certo ativismo, moldado (demais) pela lógica das redes sociais. Daí o deletério papel de influenciadores que mostram pouca reflexão e responsabilidade ao supostamente representar bandeiras. São lutas que começaram há séculos e pautas que vêm sendo defendidas e aprimoradas todos os dias por uma maioria de anônimos que puseram a vida em risco (quando não a perderam) justamente para que hoje todos os que têm na defesa real da justiça e da igualdade um pilar importante de trabalho possam ter voz e ocupar esse lugar.

“Respostas fáceis”

Em tempos de muito barulho, a fala clara, mansa e profunda de Luther King volta a ecoar em “A Dádiva do Amor”, que traz 16 sermões do líder pacifista, sociólogo, teólogo e pastor batista.

No mesmo documento de 1959 que dá início a este texto, ele continua, sobre a necessidade da formação de um pensamento rigoroso e sólido para combater a discriminação e a desigualdade, “frente ao lamaçal de propagandas falsas”: “Existe uma busca quase universal por respostas fáceis e soluções precipitadas. (…) Considerem nossa atitude em relação aos anúncios publicitários. (…) Os anunciantes há muito descobriram que a maioria das pessoas tem uma mente permissiva e capitalizam essa suscetibilidade por meio de anúncios habilidosos e eficazes”.

Defensor do diálogo multirracial e ecumênico para a construção de pontes que levassem à justiça social, no volume agora disponível em português King relembra ao leitor objetivos, compromissos e conceitos para a luta pela dignidade humana que não perdem vigência mais de meio século depois de escritos. E que inclusive continuam vanguardistas – talvez por terem se dissipado em lutas intestinas de vaidade e poder ao longo dos anos até chegar ao afogamento no mar de lacrações do nosso dia a dia.

“Há pouca esperança para nós enquanto não nos tornarmos lúcidos o bastante para nos libertarmos dos grilhões do preconceito, das meias verdades e da ignorância absoluta. As condições do mundo atual não nos permitem o luxo da permissividade. Um país ou uma civilização que continua a produzir homens de mente permissiva está comprando à prestação sua própria morte espiritual.”

A DÁDIVA DO AMOR
Preços R$ 47,90 (brochura) e R$ 19,99 (e-book)
Autor Martin Luther King
Editora Planeta